3 de maio de 2015

Textos para multimídia – criação e revisão

Textos e hipertextos constituem gêneros diferentes entre si, mas são reciprocamente influentes; a produção de um ou outro tipo demanda abordagens específicas de autores e revisores para lhes guardar a propriedade e ampliar a qualidade.

Para se criarem páginas de Web eficazes, apresentações e até mesmo exposições, deve-se desenvolver a capacidade de pensar os textos em seções significativas que podem ser ligadas de formas bem variadas, em vez de tecer as seções verbais em um todo coeso e completo, usando dispositivos de transição clássicos. O hipertexto é verdadeiramente baseado em processo, o leitor participa da construção do texto como conjunto a ser integrado na interpretação. Assim como hipertextos da Web devem incorporar elementos gráficos, possivelmente animação, som ou vídeo e elementos verbais, bem como links internos e hiperlinks para a grande rede. Em vez de desenvolver uma tese, um argumento linear através do documento, os autores multimidiáticos devem distribuir significado entre informações e arquivos, vinculando significados associativa e visualmente.
Um vídeo é passível de revisão de texto não verbal.
Todas as informações, todos os dados
e conteúdos de qualquer mídia são
 passíveis de revisão e a requerem
para maximizar a comunicabilidade. 
Nesse contexto de (hiper)textualidade da multimídia, o revisor de textos tem que estar igualmente familiarizado com os gêneros e variações linguísticas inerentes ao texto eletrônico, ao hipertexto e às mensagens subliminares. A segmentação das ideias é diferente, a coesão é proposta por elos que muitas vezes remetem o leitor a outros textos, há mais portas abertas para entrar ou sair daquele escrito que quando se trabalha com o produto impresso ou para a impressão.
A apresentação visual da informação eletrônica torna-se muito mais complexa do que os elementos do formato clássico do ensaio dissertativo. Cor, escolha de fonte e a colocação surgem em primeiro plano de algumas partes do texto, relegando outras para subordinar os status. Os autores que prestem atenção ao fazer essas escolhas para um documento da Web são menos propensos a se contentar com texto sem formatação na cópia impressa de suas redações, quando é tão fácil incorporar técnicas de editoração, incluindo gráficos, em seus papéis. A escrita para a Web privilegia as habilidades artísticas, ao passo que o ensaio tradicional privilegia as habilidades verbais. O revisor que vai colaborar nesse tipo de (inter)texto não pode ser restrito – nem pode se restringir – à edição do conteúdo verbal que integrará o produto, pois as mensagens todas se conectam e a finalidade da revisão é o aperfeiçoamento da comunicação, não a aferição linguística formal de segmentos isolados de frases e parágrafos.
Com todas as possibilidades criativas abertas para os autores, por que é que ainda se fixa o ensino da escrita nos modelos anteriores à “domesticação dos computadores”? Essa é nossa melhor medida de letramento acadêmico, ou mesmo de alfabetização escolar básica? Dessas questões anteriores ao texto derivam as equivocadas intervenções por parte de revisores que se limitam ao conteúdo verbal das mensagens, principalmente por restrição da demanda: os autores ou os editores não submetem o conteúdo integral à revisão! O problema é similar ao dos tradutores de filmes que recebem somente os textos para serem traduzidos, gerando as tão conhecidas e ridicularizadas discrepâncias nas legendas ou dublagens.

Produção textual e revisão de textos em ambientes eletrônicos

O mundo atual das pessoas intelectualmente ativas parece ser composto igualmente de três partes: reuniões presenciais com clientes, colegas, superiores e subordinados; uma comunidade eletrônica estabelecida pela leitura, escrita e outras mídias na internet; e o mundo discursivo dos textos acadêmicos, técnicos, manuais e outros impressos divulgados pela mídia tradicional. Mas, mesmo no local de encontro eletrônico, permanecem os textos com alguma precedência sobre as outras mídias. As comunidades de discursos a que os autores de nossos dias são convidados permanecem moldadas pelos de vários tipos de discurso acadêmico: as metáforas dos retóricos e dos linguistas; descrições de escritores básicos; instalações e projetos de escrita ligados a cursos e livros didáticos – adstritos à cultura livresca.
A diferença é que as discussões que se costumavam desdobrar em revistas e livros a um ritmo vagaroso durante anos, agora ocorrem em ambientes eletrônicos e comunidades virtuais em que o ritmo da discussão acelerou incrivelmente. Lemos artigos de hipertexto em revistas eletrônicas. Muito da nossa conversa profissional ocorre em listas de discussão. Discussões evoluiriam para projetos colaborativos, como apresentações de conferências, artigos de revistas e livros. Nossas organizações profissionais mantêm websites substanciais. Conferências são anunciadas em sites da Web e podem ser acompanhadas por listas de discussões ou grupos de WhatsApp. A publicação de livros e a realização de conferências são apregoadas em posts de blogs e as listas de discussão, bem como em sites da Web e em anúncios em revistas impressas. Livros aparecem para impressão direta na Web ou sob demanda e em versões digitais completas ou parciais, servindo tanto para fazer propaganda para a editora quanto para apoiar os professores que os adotam em classe. Criam-se os próprios sites profissionais como recurso cada vez mais relevante e, sempre mais, vemos os textos que produzimos para ensinar ou negociar como textos acadêmicos válidos ou recursos profissionais da maior importância.

Implicações dos (hiper)textos para autores e revisores

Qual o impacto que esse novo conceito de textualidade tem sobre o que estamos fazendo em nossas salas de aula, em nossos escritórios, consultórios e oficinas diariamente? Nossas reuniões de rotina com alunos, colaboradores, clientes incluem mais elementos síncronos ou assíncronos? Videoconferência ou e-mail? Qualquer um há de notar que cada vez se fazem mais e mais pesquisas, consultas e conferências pela Web. O resultado é que não só nossas práticas cotidianas de redação e leitura, mas todos os textos com que temos contato ativa ou passivamente refletem os novos recursos de comunicação em ambientes eletrônicos, pois a influência entre os gêneros é constante e a fluidez das ideias e paradigmas da comunicação não devem ser vistas como males.
A textualização em ambientes eletrônicos proporciona benefícios bem maiores que os prejuízos que possam ser, eventualmente, detectados. Não que esses benefícios ocorrem para todos, em todos os ambientes, mas os que já ocorrem têm sido observados por muitos professores e investigadores que se reúnem com os alunos em salas de aula virtuais, e alguns desses benefícios já se tem como consolidados:
  1. Talvez o maior benefício seja o engajamento dos trabalhos em ambientes eletrônicos. A maioria das pessoas gosta de usar computadores, ainda que não seja para redigir, mas ninguém foge de postagens e e-mail, de comentários e mensagens de texto de todos os tipos; a escrita geralmente resulta em mais interesse e participação, portanto, mais recorrente leitura e produção de mais texto.
  2. Quando alguém se envolve em conversa por texto escrito, não só produz mais texto, mas a consciência do público aumenta, amplia-se a noção de alteridade na interpretação da mensagem e da necessidade de clareza e eliminação de ruídos ou lacunas comunicacionais. Passa a haver mais propensão a (re)pensar sobre como se comunica um ponto específico para um determinado leitor depois de algumas experiências de conferência ou e-mail que exijam esclarecimentos para se negociar o significado. Esse tipo de consciência é mais difícil de se desenvolver na textualização tradicional, quando autores produzem o texto em forma de ensaio ou dissertação convencional para um leitor genérico ou abstrato.
  3. Como todos conversam nesses ambientes virtuais, vemos frequentemente não só uma voz de mais autoridade impor sua escrita, mas a construção (lúdica) de múltiplas identidades interativas. Conscientes dessa dinâmica, os interlocutores desenvolvem a percepção de questões tais como o tom adequado e outros efeitos que se podem criar pela escolha de palavras, sintaxe, pontuação, emoticons.
  4. Essa interação textual pode resultar em realinhamento da autoridade na relação comunicacional. Quem tenha usado um ambiente comunicacional síncrono de computador aprende que a voz do professor, do chefe ou do consultor é apenas uma de muitas. Isso resulta em discussão que pode parecer caótica em comparação à interação de sala de aula tradicional e presencial ou nas reuniões profissionais e acadêmicas as mais diversas. No entanto, investiu-se em maior troca de opiniões do que na discussão presencial centralizada, os envolvidos no processo têm a oportunidade de falar ou escrever equivalente à da autoridade envolvida; finalmente, podendo ser levado mais a sério por professores, colegas ou clientes – inclusive na medida em que os argumentos não estejam mascarados pelos estereótipos de cada interlocutor.
  5. Ambientes eletrônicos contribuem substancialmente para a escrita colaborativa e intertextual. É fácil trabalhar em textos eletrônicos em grupo; com efeito, qualquer conferência eletrônica é necessariamente um texto produzido colaborativamente. Faz-se referência a cada um dos outros textos e documentos conhecidos da Web de modo tão fácil como recortar e colar. Em tais ambientes, pode-se desenvolver segmentação e síntese de habilidades, bem como atribuição de significados a unidades de texto mais curtas.
  6. Integrando o revisor ao processo da discussão e produção textual, ele passa a ser um nó na malha comunicacional, podendo detectar falhas comunicacionais que sejam despercebidas pelos interlocutores e que se mostra bastante frequentes nos ambientes de intertexto sincrônico.

Um texto pode ser composto de uma seleção de importantes blocos de texto de uma conferência com edições relativamente simples, com um acompanhamento de pequeno segmento explicando o valor analítico que os fragmentos tinham para os autores. Por exemplo, alguém pode escolher um segmento que mostre como seu pensamento sobre um tema evoluiu ao longo da discussão com um ou mais dos seus pares. Nesse caso, a intervenção do revisor pode ser parte do processo editorial, ou posterior à edição.
Estamos propensos a achar que o letramento escolar deveria propiciar mais habilidades em gêneros como esses em que os autores desenvolvem habilidades de textualização mais relevantes do que temos visto até então. O ensaio tradicional já tem pouco valor em alguns departamentos universitários. Um estudante poderia criar textos ilustrando competência em ambientes eletrônicos para demonstrar sua consciência de audiência, compreensão do propósito retórico, capacidade de trabalhar em um ambiente intertextual e habilidades colaborativas gráfica consciência. Com alguma atenção da sala de aula para habilidades de edição, o que mais poderia pedir de estudantes em um curso introdutório escrito?
O ensaio como gênero para explorar, debater e discutir as preocupações acadêmicas não deve ser abandonado totalmente. No entanto, pode-se questionar o valor do ensaio tradicional como medida absoluta de competência de escrita acadêmica e profissional ou de outras competências além das literárias. Em quaisquer tipos de textos, a presença do revisor assegura a qualidade e maximiza a comunicabilidade, mantém-se a necessidade de revisão mesmo que os produtos não sejam ensaios ou textos assemelhados (Trupe).