2 de maio de 2015

Letramento acadêmico e revisão de textos eletrônicos: redefinindo os gêneros

A revisão de textos se redefine e assume novo papel à medida em que os gêneros textuais são modificados, inclusive pelas novas dinâmicas agregadas pelos recursos eletrônicos.

A base escrita universitária tem sido amplamente concebida como a produção de textos do gênero ensaio, recurso instrumental desde sempre. A revisão de textos acadêmicos sempre foi e continua sendo a auditoria dos produtos textuais e sua subsunção aos paradigmas do gênero ensaio – mesmo quando ele se estende em dissertações ou teses. As instituições demandam que os professores e os laboratórios de redação acadêmica “ensinem os estudantes a escrever” – os autores demandam dos revisores que colaborem em seu enquadramento no ritual de textualização preconizado. Ao fazer aquilo, as instituições sugerem que, aos alunos, que podemos ver como simplesmente os recém-chegados a um conjunto específico de convenções do discurso, faltam habilidades básicas de alfabetização. Mas depois do comando “ensinem a escrever” cabe a questão: “escrever o quê?”
A modernidade processa os textos muito mais rapidamente. Revisar é preciso.
O ensaio foi consagrado por séculos
como a expressão canônica do saber
acadêmico e sua mídia ideal. Mas
essa posição já não não é tão segura.
A resposta prática para essa questão é desconsiderada em milhares de horas de aula a cada ano e permaneceu relativamente estável nos últimos cem anos. O gênero ensaio e os trabalhos de pesquisa bibliográfica (resenhas, fichamentos, resumos...) são os veículos pelos quais os alunos deverão demonstrar sua capacidade de produção escrita. Mas a transformação por que passou o ato de escrever com o advento do computador e dos recursos derivados dele é fenômeno recente. A produção textual em ambientes eletrônicos começou a revolucionar rapidamente os gêneros textuais e as práticas de sala de aula. Hoje, as possibilidades de expansão para a escrita engendradas pela editoração eletrônica, e-mail, sistemas de acesso multiusuário, programáveis, interativos, ambientes em realidade virtual baseada em texto, jogos, conferências, bate-papo on-line e outras atividades que requerem comunicação em tempo real, páginas da Web e hipertexto, softwares de apresentação, rompe as limitações do mero ensaio e impõem outros tipos de pensamento e escrita.
No entanto, é precisamente esse gênero limitante (o ensaio) que a maioria dos professores ou orientadores espera dos estudantes calouros e até dos doutorandos. Todavia, gênero ensaio e seus cognatos diferem substancialmente dos gêneros desenvolvidos pelas várias aplicações de computador. Podemos esperar que esses gêneros e outros similares vão dominar o mundo do século XXI; tentemos estar preparados – preparem-se os que ensinam a escrever e preparem-se os que revisam o que se escreve: o autor do século corrente já nasceu sendo preparado para os equipamentos eletrônicos que são os instrumentos modernos da escrita. Resta-nos notar que as experiências com a tecnologia produzem textos retoricamente eficazes em ambientes de e-mail, bate-papo e hipertexto, exigindo novo conjunto de habilidades de redação dos seus autores. Além disso, nos ambientes onde são desenvolvidas habilidades de textualização eletrônica, tais como bate-papos ou blogs, emergem novas dinâmicas de produção intelectual. Tendo em conta essas alterações, podemos continuar a assumir que é necessário apenas o treinamento dos estudantes para a produção de ensaios? Podemos limitar a revisão de textos a rituais de linguística pós textual?

Recursos retóricos dos textos na multimídia

Comparem-se as características dos textos eletrônicos eficazes às características do ensaio acadêmico; não importa se é uma resenha ou uma tese. Mensagens de e-mail retoricamente eficazes, páginas Web, apresentações em PowerPoint, bate-papo eletrônico, posts de blog tendem para a brevidade e concisão. Parágrafos, frases, palavras convencionais são compactadas e abreviadas. A característica que gera o alarme entre os leitores acadêmicos é desatenção dos escritores às convenções de ortografia, capitalização e pontuação. E-mail e bate-papo eletrônico destinam-se a facilitar a velocidade de comunicação e apresentações eletrônicas destinam-se a complementar a apresentação oral, os efeitos são as execradas abreviações! Curiosamente, as abreviações aqui requeridas pela velocidade são similares às observadas nas antigas inscrições em monumentos: o esforço para gravar os textos em pedra também demanda concisão e brevidade!
Além disso, textos eletrônicos retoricamente eficazes podem fazer sentido de formas diferentes dos textos tradicionais. A maioria dos textos eletrônicos é interativa e contém elementos gráficos rotineiramente. Interatividade implica que escritores esperam resposta de leitores reais. Mensagens de e-mail e conferências, posts, audiências específicas são designadas dentro do texto, em vez de ser projetado para um “leitor mediano” ideal e abstrato. O convite à interatividade também afeta as mensagens porque são produzidas no contexto das conversas, faltam-lhes as provas, as referências, os detalhes de suporte e as informações contextualizadas exigidas no ensaio acadêmico.
A página da Web é publicada para, potencialmente, uma audiência global. Interatividade e intertextualidade são construídos em uma página da Web por meio de vinculação, linkagem, ou pelo tão desejado comentário aposto a ela pelo leitor. Os links substituem as conexões verbais (elementos de coesão textual) como transições entre partes do texto. Os hiperlinks também substituem os resumos verbais de argumentos e notas de fim ou notas de rodapé dos textos tradicionais impressos. O leitor de uma página da Web deve ter papel ativo na construção da organização do texto e fornecimento necessário do contexto a partir novas pesquisas: a navegação hipermidiática.
Em vez de alcançar a coesão por meio de formulações de transição, textos criados em ambientes interativos indicam relações intertextuais pela repetição de palavras significativas e por referências contextuais recíprocas.
As ricas possibilidades de intertextualidade são ampliadas pelas formas que o domínio da interação eletrônica rotineiramente aplica a referências cruzadas entre gêneros cujos limites são rompidos. A circulação de informações em ambientes digitais faz com que os arquivos de áudio, vídeo e gráficos – anteriormente considerados gêneros diferentes – facilmente estejam acessíveis dentro de qualquer gênero digital.
Participantes qualificados em discussões eletrônicas em tempo real são hábeis em multitarefas. Eles podem participar de várias conversas distintas com amigos em locais remotos e tópicos completamente diversos usando programas de mensagens, ou lendo e respondendo e-mails, ou pesquisando na Web arquivos de música, ou finalizando uma tarefa para sua próxima aula, ao mesmo tempo que eles estão participando de uma discussão de dois ou três grupos distintos por WhatsApp, adotando uma voz diferente ou persona distinta em cada atividade.
Nesse ambiente acelerado e polimorfo, a preocupação com a ortografia, capitalização e pontuação é mais do que um encargo desnecessário à interação; é importuno e pedante. Abreviaturas, siglas e grafias criativas são bem-vindas, e marcadores convencionais de limites da sentença são geralmente supérfluos.

Recursos de escritores e revisores para produzir textos eletrônicos

Comecemos a pensar em possibilidades para expandir a comunicação baseada em texto para além da troca de rascunhos de cópia impressa do círculo de sala de aula. Os autores, a cada ano, têm maior familiaridade com ambientes eletrônicos. Mas, quando incorporamos esses tipos de tecnologia, precisamos pensar sobre as habilidades diferentes de escrita. Que tipo de letramento é necessário? Que tipo de revisão é cabível? Como atuará o revisor nesse contexto?
Para começar, entre os gêneros desenvolvidos eletronicamente, exigem-se textos mais breves do que a tradicional escrita acadêmica, é necessário que o escritor chegue ao ponto rapidamente, conciso e claro. Os parágrafos introdutórios que rotineiramente ajudam a apresentar e a desenvolver ideias são inapropriados em e-mail, documentos Web e apresentações (PowerPoint). O impulso de simplesmente afirmar a ideia principal em uma frase, que se trabalha para conter quando se trata da alfabetização ensaísta, é muito mais apropriado ao escrever textos para ambientes eletrônicos cujo desenvolvimento é altamente comprimido.
Em vez de apresentar seus pontos em parágrafos repletos de detalhes, escritores de e-mail, mensagens de conferência ou documentos da Web geralmente remetem os leitores a outros documentos, através dos links que se pode decidir seguir. Assim, a capacidade de elaborar é remodelada em ambientes eletrônicos.
Em muitos casos, os documentos que são lincados ou as referências cruzadas foram escritos por outros autores. Fica implícito na vinculação de documentos de diversos autores o elemento de colaboração ou intertextualidade. O ensaio tradicional é produção independente, com corroboração de pontos da autoridade maior de textos publicados sob a forma de citação seletiva e paráfrase. Colaboração na criação e negociação de significado com interação em curso, no entanto, é habilidade que muito de nossa instrução escrita realmente não exige ou recompensa, apesar de se buscar inculcar nos escritores habilidades colaborativas já a bastante tempo. Em ambientes eletrônicos, é muito mais fácil criar situações que desenvolvam habilidades colaborativas, inclusive inserindo a revisão do texto na dinâmica da comunicação como mais um nó na malha comunicacional.
No ambiente síncrono e hipermidiático, deve-se processar e responder a cada um dos outros textos de formas não-lineares. Um elo específico surge, desaparece e reaparece ao longo de vários posts, não consecutivamente. Os padrões surgem das contribuições dos vários autores, mas as relações que os leitores percebem que não estão articuladas nas palavras de qualquer texto individual. Os autores devem aprender a seguir tópicos, para construir textos coesos sem referência à sequência em que a conferência é escrita. A revisão de textos, que era vista no contexto tradicional do gênero ensaio como uma etapa pós-autoral, passa a integrar na nova hipervia da comunicação, atuando sobre segmentos de informação, na mesma dinâmica em que ela se processa, requerendo do revisor interação sincrônica no processo comunicativo.
Nós devemos reconsiderar nosso senso do público em domínios eletrônicos. Os autores de ensaios podem imaginar sua audiência como o leitor informado geral ou pensar seus pares como sua audiência. Em contraste, o público para e-mail e mensagens de conferência eletrônica é concreto e pessoal. O e-mail é dirigido a um indivíduo ou grupo específico, e mesmo em bate-papo e listas de discussão, mensagens, muitas vezes dirigidas a indivíduos específicos. Ninguém precisa mais de instrução em habilidades retóricas para imaginar este público específico para sua escrita. Ninguém pode esperar dois dias por um revisor para enviar um e-mail. Portanto, a intervenção do revisor se converte em interação – mesmo que distante, mas sempre concomitante.
Além disso, textos neste ambiente eletrônico são efêmeros. Os escritores mais habilidosos em ambientes de bate-papo, e-mail, SMS, WhatsApp, geram texto rapidamente. A geração do texto que tem embutido o processo de revisão e reescrita múltiplas, lentas, progressivas, é um obstáculo para a comunicação eficaz quando a revisão não se dá em interação sincrônica. Na troca de e-mail ou SMS, se um leitor não entender o post do escritor, a resposta dele mostrará e, no próximo post, quase certamente, vai-se esclarecer a obscuridade do primeiro post. Na verdade, muita atenção à ortografia, gramática, sintaxe e pontuação vai resultar em mensagens sendo ignoradas em um ambiente de bate-papo, onde a conversa se move muito rapidamente para tais sutilezas. Assim, muitas das competências na elaboração e edição necessárias ao letramento acadêmico tradicional são irrelevantes para o uso eficiente do ambiente de discussão eletrônica. Nesses casos, não cabe revisão, pelo menos não até que se reinvente o processo de colaboração dos revisores. Curiosamente, em nossa experiência de participações em dinâmicas de interação em bate-papo e congêneres, assim que se tem ciência que há um revisor na rede, há bloqueios de comunicação – geralmente da parte daqueles mais adstritos à formalidade da textualização ensaística, o que não cabe no caso (vide Trupe).