8 de abril de 2015

Escrita, leitura, diagnóstico e intervenção – a revisão do texto

Nas últimas décadas, o conhecimento sobre a produção escrita foi muito ampliado e, ao longo dos anos, refinou-se, incluindo o diagnóstico e a intervenção como processos da revisão dos textos.

Na escola da linguística tradicional, inclusive no que se refere à linguística aplicada à revisão de textos, antes da década de 1970, o estudo da produção escrita era focado no objeto final e não se havia tomado muito em consideração a maneira pela qual o autor produzia um texto escrito. Na verdade, os autores e revisores não interagiam para obter o atual desenvolvimento da forma e do conteúdo de um texto, mas se limitavam a corrigir erros recíprocos sem pensar nas estratégias dialógicas para compor o texto em regime cooperativo: a habilidade linguística do revisor limitava-se a proporcionar um texto “certo” sem se preocupar com os aspectos da produção que podem levar ao texto “melhor”.
O revisor tem olhos e ouvidos para o texto e para o autor.
O revisor está atento ao texto como
mídia e como produto, como objeto
de conhecimento e como complexo
cognoscível.
No contexto da pesquisa em linguística aplicada, muito progresso foi realizado, sem dúvida, quando chegamos a pensar: o que faz um autor ao ser colocado ante a tarefa da escrita? Que estratégias se requer dele? Os estudiosos começaram a colocar o foco em processos que são ativados durante uma tarefa de escrita e, em seguida, na organização de conteúdo e processamento de pensamento por parte do escritor. Escrever significa desenvolver conhecimentos. O revisor passou a ser visto como um agente no processo de composição do texto, e o autor deixou de ser o paciente que submete seu texto ao bisturi da revisão.
Hoje em dia, graças às descobertas feitas nos diversos estudos, verificou-se que a habilidade da escrita é complexa e difícil, mas ainda existem diversas incertezas no que diz respeito a processos implementados em uma tarefa dessa natureza e que requer tanta inteligência – no sentido de interligação.
As principais etapas do processo de escrita são planejamento, escrita, reescrita e revisão, que, por sua vez, são operações que não ocorrem em sequência, mas com flexibilidade discursiva, são operações também que se dividem em subprocessos passíveis de ser investigados e aperfeiçoados em foco específico. Escrever um texto, na verdade, não é tarefa de um ato ou linear, porque, quando se escreve, podemos transformar e transmitir nosso conhecimento, mas, enquanto escrevemos, nosso conhecimento se transforma e reaprendemos tanto ou mais que ensinamos.
O autor de um texto costuma adotar a estratégia que envolve menor esforço de pensamento, na verdade, porque ele não é treinado para escrever, mas o é para falar; na escrita, há a presença subsumida do destinatário, que pode fornecer ajuda e suporte, ou crítica e contraponto – e esse é, em parte, o papel assumido pelo revisor, que age e interage como destinatário ficto mas privilegiado pela instrumentalização do campo da linguística de que está provido. Como resultado lógico e dialógico, o autor deve aprender a adaptar o sistema de produção textual a cada tipo de exigência do leitor alvo.
Outro modelo que se afasta do de menor esforço é o escrever como tarefa que aumenta em complexidade para coincidir com a crescente competência do escritor: como aumentando assim a capacidade, as velhas dificuldades tendem a ser substituídas por novos problemas, em refinamento crescente de complexidade do conteúdo cognitivo ou estético processado.
Nesse segundo modelo, chamado a transformar o que se sabe, o escritor considera a tarefa de escrever como um problema a ser dirigido, controlado ou proposto ao leitor; portanto, o autor solicita sua memória, procurando o conteúdo mais coerente possível com o tema, para resolver de modo operacional o problema de escrever metacognitivamente. De acordo com esse modelo, portanto, o escritor se torna o conhecimento, coordenando recursos de linguagem (formas) para a geração e comunicação de ideias (conteúdo), gastando mais tempo no planejamento e nas reescritas.

Comparar, diagnosticar, interferir (CDI)

A tarefa da escrita, na mente do escritor (mais precisamente na memória a longo prazo), cria dois tipos de representação mental: o texto na verdade (pré)escrito até o ponto em que o texto passa a ser (re)escrito... pretende-se escrever, portanto se compõe e, ao escrever, se recompõe. A complexidade desse processo de grande complexidade cognitiva leva à necessidade de que o produto seja comparado ao projeto (à representação mental havida dele) e ao conhecimento já partilhado naqueles limites gnosiológicos.
O processo CDI é ativado quando o escritor ou o revisor percebe que existe divergência entre as duas representações, a pré-textual (mas já cognitiva) e a textual (metacognitiva): e são ativados processos composicionais de comparação entre as duas representações. Na verdade, o primeiro passo no processo é chamado comparação, precisamente porque o escritor ou o revisor, pela releitura cuidadosa do texto escrito até agora, busca identificar o que não funciona no processo comunicacional. Depois, a atenção centra-se na etapa seguinte, diagnósticos, em que escritor e revisor tentam compreender as causas que resultaram de divergência entre as duas representações. Essa fase é crucial, porque, se escritor e revisor não identificam as razões para o problema, não serão capazes de ativar a próxima fase, chamada interferência, que é caracterizada por dois componentes: em primeiro lugar, escolher táticas, localizar um tipo geral de edição textual (por exemplo, excluir ou adicionar palavras); se a escolha tática requer mudanças no texto que ativam o segundo componente, gera mudanças, envolvendo os respondentes sobre o texto. Isso envolve a criação de um novo ciclo CDI.

Revisão e interferências sobre o texto

Os autores falam muito pouco sobre seu texto no que tange ao processo de reescrita e revisão, embora elas sejam subprocessos da escrita que sempre estiveram presentes, tanto na composição de textos criativos, quanto técnicos ou científicos.
Geralmente, a visão que os autores têm dos serviços de revisão de texto se restringe à correção de erros formais e facilmente detectáveis (ortografia, pontuação, etc.), mas negligencia os aspectos semânticos e organizacionais, desde que a maioria dos escritores não pode manter tais componentes sob controle completo, dado que não tem nenhuma ideia que a revisão penetra o texto de acordo com critérios composicionais que não são de domínio comum.
Na revisão (mais correção) vista como sinônimo de eliminação de erros formais, o texto é tomado como definitivo em sua estrutura. Portanto, não se deve centrar unicamente no grau de correção, sobre como escrever, mas, de acordo com essa visão, o que escrever assume importância fundamental.

Problemas operacionais na avaliação da própria escrita

Consideramos que a proposta de transformar o que se sabe sobre revisão de textos não pode ser limitada pela incapacidade de os autores revisarem os próprios textos, ou pela desinformação deles sobre procedimentos dialógicos da produção textual, pelo fato de os escritores não estarem providos das capacidades de feedback necessárias para operar de forma concreta a avaliação. Na composição escrita e na interação entre autor e revisor, todo o apoio e o feedback fornecido pelo parceiro durante uma conversa (por exemplo, sinais de mal entendido) desaparecem e o escritor deve ser capaz de se adaptar ao sistema de produção de linguagem e aos códigos de interferência da revisão para operar de forma cooperativa.
Outra dificuldade reside no controle operacional: parando para avaliar o que foi escrito, o revisor identifica problemas pouco aparentes dos textos; no retorno ao autor, deixam pendentes questões que, por não obterem respostas, ficam como relegadas à estratégia do abandono. Nesse caso, o problema não é omissão de elementos do processo, mas a má comunicação e exclusão de subprocessos CDI inteiros no processo mais amplo de revisão.
Faz-se necessário o uso de procedimentos facilitadores na comunicação entre autor e revisor para fornecer uma rotina operacional. Graças a etiquetas, notas e comentários inseridos eletronicamente no arquivo digital do texto, com inscrições de frases facilitadoras, os autores podem seguir o texto frase por frase, obtendo ajuda e suporte passo a passo para a reescrita. Na verdade, esse procedimento de simplificação (decorrente do abandono das clássicas notas de revisão tipográfica) promove um recurso regular ao processo CDI e reduz a lacuna de carga cognitiva, pois autor e revisor estão cooperando ao comparar estágios e escolher a tática sugerida, que já está prenotada e predefinida.

As características do texto

O texto corresponde a determinada intenção comunicativa e é caracterizado por: um tema coerente, uma função comunicativa que pode ser vista claramente e em ações concretas e comunicativa em relação a uma situação e pressupostos concretos.
Define-se o texto como uma ocorrência de comunicação que reúne sete condições de textualidade, critérios que são: coesão, coerência, intencionalidade, informatividade, aceitabilidade, situacionalidade e intertextualidade. Os dois primeiros são os critérios mais importantes que regem as relações morfológicas e sintáticas (coesão) e relações lógico-semânticas (consistência); eles são dois elementos cruciais para se diagnosticar se um texto foi bem concebido e escrito. São elementos que nos fazem entender como o autor constrói o texto (e, portanto, seu pensamento!). Consistência pode ser definida também como o próprio resultado de processos cognitivos de usuários de textos.

Coerência e coesão textuais

Precisamente porque a coesão e coerência são os dois principais critérios de textualidade, é bom fazer aqui breve descrição para auxiliar na compreensão destes princípios.
A coerência é a relação que vincula os significados das palavras que formam um texto – a continuidade entre as relações morfológicas e sintáticas – e gerencia as maneiras pelas quais são interconectadas as partes significantes de um texto.
Em vez disso, a coesão refere-se a todos os aspectos da linguagem, vinculando as frases que compõem o texto (concordâncias, morfologia, topologia pronominal, conetivos, etc.) em elementos significativos.
Resumindo, consistência refere-se ao significado do texto (ou seja, o conteúdo), enquanto a coesão refere-se à forma.

A compreensão de um texto

Durante o ato da leitura, o leitor, com suas estruturas cognitivas e afetivas e seu repertório linguístico, está em constante interação com o texto (tipo, estrutura, legibilidade, etc.) e aproxima-se do texto com intenção específica, tendo a possibilidade de escolher a estratégia que considera mais eficaz para lê-lo da forma que for mais conveniente. Durante a leitura, ele recebe comentários que permitem a ele reajustar sua abordagem e estratégias, em caso de mau funcionamento ou inadequação metacognitiva.
Portanto, além de decodificação que intervém quando o leitor transforma os símbolos gráficos em linguagem, a capacidade de ler requer a capacidade de reconstruir os significados latentes do texto: ao ler um texto reconstruímos um significado com base no que sabemos (experiências pessoais, conhecimentos linguísticos e gramaticais) que são usados para formular hipóteses testadas durante a leitura. Muitas vezes, significados e conceitos implícitos são reconstruídos de nossas mentes em diálogo contínuo com o texto, comparando o repertório intelectual do leitor com o texto, ativando assim uma reconstrução do significado.
Finalmente, para entender como o leitor se direciona à plena compreensão do texto – ainda sem alcançá-la, pois compreensão plena inexiste – é útil considerar as etapas que ocorrem durante o processo de compreensão na mente do leitor. A primeira fase é a elaboração do material linguístico da memória de trabalho, em seguida, as informações são reformuladas no idioma da mente e a filtragem de informação ocorre onde os conteúdos mais importantes são mantidos, enquanto aqueles considerados menos úteis são modificados e os inúteis descartados. Dos significados que foram salvaguardados, se extrai o significado da informação; finalmente, as estruturas do conhecimento são criadas ou atualizadas com novas informações (somos confrontados com um processo de assimilação e acomodação no sentido piagetiano).
O homem tem a capacidade de usar suas representações mentais para analisar seus conhecimentos sobre determinado assunto. Refletir sobre nosso conhecimento é característica típica da espécie humana. Portanto, a reflexão sobre a língua dentro do mais amplo campo de conhecimento e de reflexão ocorre graças à possibilidade de se referir continuamente à língua.
A fim de se fazer a revisão de um texto, portanto, requer-se o sentido metalinguístico e metacognitivo do revisor e, do autor, habilidades dialógicas. A revisão de texto é reprocessamento do que foi escrito e pressupõe a capacidade de reelaboração, transformação e (re)conhecimento assim como metaconhecimento. A revisão é, portanto, uma fase complexa, relacionada a processos extralinguísticos de pensar e aprender o destino implícito, inerente e subjacente a cada texto (adaptado de Delcò).
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