11 de fevereiro de 2015

Revisão de textos: ideologia, interacionismo, crítica e práxis

O texto revisado está sempre melhor, mas deve-se sempre resguardar as características autorais, preservando a identidade ideológica original.

A ideologia na revisão de textos

Qualquer texto é exemplo significativo das infinitas possibilidades de comunicação que a língua oferece, o que nos coloca diante do grande desafio da revisão de textos: fornecer alternativas de interferência nos textos escritos, preservando as características do autor, sua origem social e ideologia, e identificando sua intenção e o público a que se destina. O trabalho de revisão não pode descaracterizar as marcas do gênero, do autor, dos atores sociais/personagens e do leitor/receptor, tendo em conta as particularidades do contexto sócio-histórico, ideológico e cultural que se pretende registrar e transmitir.
Texto é uma unidade complexa e plural a ser compreendida.
As mudanças do cenário
 comunicacional, implicando
novas mídias, são consideradas
na hora da revisão.
O revisor não pode sempre exorbitar do poder de alterar o texto para corrigir inadequações, sob pena de distanciá-lo dos propósitos do autor. Só o faz quando existe motivo interno e externo ao texto que justifique tal intervenção.
Da mesma forma que o contexto social é determinante na produção de formas simbólicas, também o será na recepção e no modo como elas serão interpretadas pelos receptores.
A linguagem é ferramenta essencial para a transmissão da ideologia dominante, mas é também instrumento importante de contestação ideológica.
Todo texto constitui elemento de interação entre quem o produz (autor/falante) e quem o interpreta (leitor/interlocutor). O conhecimento de mundo e o contexto sociointeracional partilhado pelos interlocutores são relevantes para o estabelecimento da significação textual. Qualquer expressão de movimento social torna-se um mecanismo de transformação da visão de mundo daqueles a quem se dirige, do centro ou da periferia. Esse potencial transformador é o que pode, por exemplo, fazer de algum texto um gênero artístico de penetração, mesmo não contendo as características formais da norma culta aceitos pelos meios de comunicação de massa ou pela academia.

Entendida a linguagem como importante instrumento de preservação e de contestação ideológica, procuramos ter em mente o desafio profissional do revisor de textos que consiste, a um só tempo, em aprimorar e corrigir o texto, mas sem desfigurá-lo dos traços de criatividade e originalidade de seu autor (Campos, A. M. V. C.).
Hoje se sabe que o sentido do texto e a significação das palavras dependem da relação entre sujeitos, construídos pela interpretação em que eles se encontram; a intersubjetividade é anterior à subjetividade, pois é a relação entre os interlocutores que funda a linguagem, dá sentido ao texto e também constrói os próprios sujeitos produtores do texto, em relação reflexiva. Portanto, acreditamos que a intervenção proposta pela revisão do texto, independentemente da modalidade em que se processe, deva ser interativa. Com intervenções interativas, resultantes de prática dialógica na revisão de textos, auxiliamos os autores, principalmente na redação acadêmica, técnica, científica, a construir e “desconstruir” o conhecimento, os sentidos das verdades provisórias.
Sobretudo, procuramos valorizar cognitivamente o objeto do texto pela valorização da mídia, adequando-a ao gênero em produção: em termos técnicos, pela atribuição de ações ao autor do texto original, retomadas anafóricas, etc. Propomos na revisão do texto fazer emergir a reflexão bakhtiniana a respeito do movimento dialógico. O dialogismo é um dos conceitos importantes na obra de Bakhtin, nesse contexto,
"compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim  como uma réplica está para outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra".
Dessa forma, a revisão de texto dialógica se propõe uma leitura de contraponto ao autor, como proposta de valorização do produto do autor subsidiada pelas releituras críticas (Gonçalves, A. V.).
Por isso, dotamos a concepção interacionista de língua e de revisão de textos, segundo a qual a escrita é encarada como processo contínuo e complexo, em que, para ser comunicacionalmente eficaz, devem-se cumprir etapas como a produção textual, a revisão e a reescrita. Assim, o texto do autor deve sempre ser compreendido como provisório, sujeito a várias versões, de preferência mediadas pelo revisor. Contudo, a prática de mercado nos revela que o trabalho com a escrita restringe-se, muitas vezes, à higienização do texto, limita-se à verificação de sua superficialidade linguística, o que apenas resolve as inadequações com relação à estrutura gramatical da língua.

A comunicação entre autor e revisor melhora a comunicabilidade do texto.

A escrita, idealmente,  é processo contínuo de interação, em que se cumprem etapas entre os diversos sujeitos do processo comunicacional, dentre os quais, como mediador qualificado, surge o revisor de textos.
Ao adotarmos a concepção de escrita como trabalho, não podemos isentar o importante papel do leitor qualificado, o revisor que, com o autor, vai construir em processo de co-produção, o sentido para o texto. Assim, o caráter responsivo da linguagem, proposto por Bakhtin, se concretiza, visto que ao ler e revisar o texto do autor, o revisor imediatamente contribui para que algumas lacunas sejam preenchidas, por meio das inferências que faz. Entretanto, nem sempre esses espaços são completados, já que ler e revisar geralmente consistem na procura dos erros que o texto apresenta, ou seja, é muito mais comum que o revisor faça apenas a higienização da superfície, corrigindo as inadequações gramaticais que o texto apresenta.
Há algumas estratégias para a revisão de textos que dependem da leitura que o revisor tem por hábito hábito fazer, assumindo o papel de interventor, ou de co-produtor das produções textuais - em geral, fazemos tudo isso (Monterini, N. G.):
  • Na revisão indicativa, marcar as inadequações do textos, com sinalizações, apontando apenas o local de algum problema a ser considerado pelo autor;
  • Na revisão resolutiva, corrigir todos os erros pacíficos do texto, reescrevendo palavras, frases e até períodos inteiros;
  • Na revisão classificatória, assinalar problemas recorrentes, destacando-os, indicando ao autor evitar a situação ou indicar a solução que ele prefere;
  • Na revisão interativa (cooperativa, colegiada, colaborativa), apresentar comentários mais longos em notas adjacente aos textos, com objetivo de discutir as inadequações, dúvidas, apresentar esclarecimentos, de modo que o revisor não apenas aponta os erros do autor, mas discute as alternativas e possibilidades comunicacionais. Esse tipo de revisão pratica a atitude responsiva que as tarefas de produção e coprodução textual requerem.

O papel do revisor de textos é o de facilitador da comunicação

Qualquer dissertação é valorizada com revisão. O papel da revisão de texto é, principalmente, destrinchar o que está escrito – ou representado – buscando o sentido mais amplo do autor para chegar à eficiência comunicacional, considerando o contexto – e, quando se fala em contexto, quer-se dizer absolutamente tudo: etnia, classe social, formação – em que se insere seu autor. Desse modo, devemos estudar a revisão de texto em perspectiva social ampla.
A prática social tem várias orientações – econômica, política, cultural, ideológica e a revisão de texto está presente em todas elas, uma vez que a ordem social que estrutura uma sociedade estabelece-se a partir de um mercado complexo em que os textos são produzidos, distribuídos e consumidos. Esse mercado diz respeito a como os textos são produzidos e, de maneira particular, em que contextos sociais específicos: pressões, vaidades, demandas;  refere-se também ao contexto do consumo de textos, variando de acordo com sua natureza, destinação, clientela; explica, enfim. como os textos são consumidos no mundo, podendo ser distribuídos de forma simples (conversação casual), ou complexa – o texto jornalístico ou uma tese, por exemplo.
A importância social da revisão de texto engloba a prática discursiva. Isso porque ambas, tanto a revisão de texto quanto a prática discursiva, são atividades que lidam com gêneros discursivos variados. O revisor trabalha com folders, textos jornalísticos, outdoors, teses, poesia, roteiros. Isso comprova que o texto não se restringe ao que se escreve, mas engloba diferentes formas de expressão – imagens, cores – que ajudarão a compor com a parte linguística (Rocha & Silva).

Da revisão de texto à revisão de texto crítica

A linguagem escrita está se tornando, cada vez mais, apenas um dos muitos modos de representação do conhecimento. A revisão de textos crítica constitui-se a partir da percepção do texto como elemento das práticas sociais em perspectiva dialética entre linguagem e sociedade. Assim, essa teoria considera o texto como integração de diversas formas de modos semióticos, em que os autores, ao fazerem uso dos recursos disponíveis, agem sobre as outras pessoas e sobre o mundo. De outra parte, a comunicação sempre foi multissemiótica, mas assumir essa perspectiva em revisão de textos torna-se algo novo e assustador, principalmente para as sociedades grafocêntricas como a nossa. As mudanças no cenário comunicacional têm ficado fora do ensino de Língua Portuguesa no Brasil porque, em grande parte, valoriza-se, ainda, o modelo autônomo do letramento, centrando-se no entendimento da nomenclatura gramatical em atividades fossilizadas, não significativas e fora do contexto social dos alunos e alunas.
Considerar a prática de revisão de texto um processo simplesmente mecânico é um pensamento errôneo e primitivo. Sabe-se que texto envolve muito mais que as regras gramaticais; ele engloba contextos subjetivos, sociais, históricos, linguísticos e cognitivos. Isso porque, na construção do texto, existem tantos elementos envolvidos quanto é a complexidade deles. Porém, pode-se dizer que, sem um desses elementos, em especial, não há como se ter sequer uma frase.
Seja qual for o tema, seja qual for a intenção ao se produzir um texto, ele vai ser consequência do ponto de vista, do contexto, do sentido, enfim dos conhecimentos de seu produtor, e tudo isso faz parte de uma construção. É exatamente do que trata a identidade de um indivíduo, de um processo de construção ao longo da vida. Pelo fato de que a revisão de texto vai muito além de um trabalho técnico ou da aplicação das regras gramaticais, é preciso que haja entre autor e revisor a negociação do sentido, em que ambos possam chegar a um ponto em comum em relação às “intenções” do texto (Rocha & Silva).
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