Reflexões atuais acerca da produção, revisão e reescrita de textos

Revisar é muito mais complexo que os autores iniciantes imaginam, por isso apresentamos estas nossas reflexões acerca da produção e a reescrita de textos na atualidade.

A linguagem humana é um dos mais importantes mecanismos de ação e práticas sociais, indispensável no mundo cultural, visto que carrega na sua formação a construção e a expressão do conhecimento, normas de conduta, valores e outros fatores que norteiam a vida do indivíduo dentro da sociedade. Através dela, complexa estrutura simbólica, podemos expressar ideias e sentimentos a respeito do mundo em geral. Fruto dessa estrutura, a linguagem escrita é na vida cotidiana moderna o principal meio de interação entre as pessoas, tornando o texto assunto foco de diferentes áreas do saber, dentre elas, a da produção e revisão textual.
Keimelion é a palavra grega para cimélio: obra rara, livro precioso.
Há sempre muitas vozes na produção de
um texto, mas a voz mais forte na revisão
de textos é a da Keimelion.
No mundo globalizado, é comum vermos e ouvimos opiniões acerca da importância que a imagem passou a ter com outras linguagens audiovisuais. Inclusive, para alguns, a linguagem não escrita poderia até ultrapassar, em importância e número, a cultura escrita, estabelecendo a profusão da cultura imagética. Porém, contradizendo tal opinião, pode-se constatar ainda que grande fluxo de textos vem sendo produzido e veiculado nos mais variados suportes, impressos ou digitais. A maioria dessas publicações é resultado de um processo minucioso em que textos “originais”, conforme a linguagem editorial, são “tratados” por profissionais da língua e passam a ser textos revisados, o que caracteriza intenso processo de reestruturações da “matéria-prima linguística”, dando sequência a um ciclo ininterrupto de produção de textos baseados em textos anteriores. Esse processo tem o objetivo de enfatizar as vantajosas e possíveis condições de produção e recepção, conforme o pretendido na ocasião, tornando a produção de textos, unida à reescrita, uma ação não mais pontual e “inspirada”, mas uma atividade técnica e detalhista.
Nesse contexto, as diferentes atividades relacionadas à produção textual, assim como as profissões ou funções a ela associadas – tais como a revisão e a edição de textos, vêm ganhando maior e crescente importância, lado a lado ao impacto e influência das tecnologias digitais de produção e transmissão de informações. Luz maior daremos ao processo de revisão, ou “retextualização”, termo que é utilizado por muitos autores para caracterizar o processo de tradução de um texto de uma língua para outra, o que podemos relacionar ao nosso caso entendendo tal processo como uma adaptação do texto de uma modalidade de escrita para outra, permanecendo-se, no entanto, na mesma língua, observando aspectos relativos às mudanças no texto ao reescrevê-lo, ou de rearranjos adequando a estrutura do texto ao gênero em que ele se insere, depurando as construções e estruturas adotadas. Partindo do pressuposto de que “reescrever é produzir um novo texto”, toda e qualquer atividade desse tipo vai implicar, necessariamente, em reformulação do que foi dito, o refinamento ou aperfeiçoamento interno dos parâmetros discursivos, textuais e linguísticos que permeiam a produção original, materializando-se a nova versão do escrito. A produção de novo texto a partir do original, ou “texto-base”, no entanto, pode também ser vista como o ato de gerar um trabalho a partir de outros que são utilizados como fontes, dada a enciclopédia do próprio revisor, por meio de uma operação mais derivada que autoral, que pretende agenciar recursos linguísticos, realizar operações linguísticas, textuais e discursivas, a fim de projetá-las tendo em vista uma nova situação de interação, um novo quadro de referência. A atividade de revisão envolve então, sob essa perspectiva, tanto relações entre gêneros e textos – a intertextualidade – como relações entre discursos, sendo influenciadas por variáveis fundamentais como o propósito, a relação entre o produtor do texto original e o profissional revisor e a relação tipológica entre o texto original e o gênero reformulado.
Talvez essa consciência completa do próprio texto seja um estágio desejável a qualquer escritor, algo que pouco acontece. A possibilidade mais adotada, portanto, é o autor escrever e uma segunda pessoa atuar como transformadora do texto, tratando-o conforme diretrizes pré-configuradas. A revisão pode também ser associada ao processo de produção de texto cujo objetivo maior é a alteração de trechos de um original, mantendo-se sua estrutura básica, mesmo que a intervenção seja mais intensa. Certos manuais mencionam quatro operações no processo de reescrita utilizados durante a revisão: adição, substituição, deslocamento e supressão. Em todas as quatro operações, as intervenções podem ser de ordem mais regular, alterando-se a pontuação, por exemplo, ou mais abrangente, alterando palavras ou frases, agindo sobre a textualidade e a discursividade. Essa alteração não-estrutural somente com o propósito de refinamento dos parâmetros discursivos, textuais e linguísticos, ou “higienização do texto”, sem o apagamento de marcas autorais do texto em nome de rigorosa adequação a parâmetros normativos da língua, é assim primordial para a reprodução de um texto “limpo” e, principalmente, adequado a dada situação comunicativa, especialmente quando ela tem como meta a publicação.
Chamamos de revisão as “modificações escriturais pelas quais as diversas condições dos textos formam os seguimentos retomados, que resultam em um texto terminal”, o que acaba por esclarecer a extensa gama de atuações dos profissionais que trabalham especificamente com o texto, gama cheia de sutis diferenças entre os profissionais. Definindo melhor tal processo, há dois tipos de operação metaenunciativa que promovem um retorno sobre o dizer, a tarefa de reescrita que pode ser executada pelo próprio autor ou as operações de revisão quando um outro retorna sobre o dizer do autor, o revisor textual. Porém, em ambas as situações, o retorno é carregado de pressupostos, conceitos e maneiras de pensar sobre texto e discurso, que influenciam e também trazem consequências sobre o dizer “terminal” que, posteriormente, deverão ser rediscutidas com o autor, num tipo de interação de feedback entre quem revisa e quem submete seu texto à revisão.
Podemos também discutir a respeito de como essas intervenções podem ajudar a entender e nomear algumas atividades ligadas a esse tipo de “manipulação” do texto escrito. Os profissionais da área de revisão e edição de textos, contexto em que o texto é uma das matérias-primas, precisam estar cientes das ações que executam sobre o trabalho alheio. Essas atividades editoriais, ao mesmo tempo em que são parte dos processos de escrita, nascem das revisões efetuadas na produção, podendo somente acontecer a partir dessa atividade de reapropriação do texto. Revisores profissionais, geralmente, têm de certa forma o propósito de reescrever para tornar um texto mais legível, com o cuidado de manter o respeito ao original. A revisão de textos, partindo dessa ideia, não é concebida como tarefa pedagógica nem andragógica, pois não se trata de “ensinar” um autor a escrever, mas de ajudá-lo para que o que foi escrito esteja em boas condições antes de ser levado a público, diferente da correção em âmbitos escolares, por exemplo. Nesse contexto, consideramos legibilidade como característica necessária da construção linguística do texto, além dos aspectos gráficos, como a fonte, tamanho do espaçamento entre letras, entrelinhas, distribuição do texto pela página, entre outros mecanismos usados para se chegar ao objetivo em questão. Assim, a revisão interativa, (quando o revisor dialoga com o autor, dando sugestões e discutindo aspectos do texto), subsidia a construção da autoria, sendo mais pertinente então à revisão profissional. Em geral, a produção editorial opera em prazos curtos, com riscos financeiros, confiança na qualidade do trabalho e é comum que os contratantes de serviços desse tipo desejem que o revisor apresente soluções, ficando a par do que é feito e alterado – configurando-se a revisão resolutiva controlada como modelo ideal. Revisores que apresentam muitas alternativas ou os que não explicitam as interferências como propostas, geralmente, são considerados profissionais inadequados em tais situações.
Algumas vertentes de estudos de texto procuram relacionar a revisão textual à correção formal da linguagem, restrita à alteração de questões como ortografia, estrutura da língua, concordância verbal e nominal, colocação pronominal, regência, pontuação – aspectos a que se refere como “revisão mecânica” – o que define e restringe a atividade do profissional revisor a uma intervenção pontual e um tanto tecnicista sobre o texto, sendo mais apropriado vê-lo como um corretor de estilo, com formação não só limitada à aspectos da norma, mas filológica, bibliológica e com cultura enciclopédica, preocupado em corrigir, de maneira coerente e unificada, as incorreções ortográficas, léxicas e gramaticais, assim como os problemas de coesão e coerência do texto. 
Seria possível, dessa forma, falar da revisão como uma etapa avançada da produção textual que, através de leituras minuciosas do trabalho, observa-o em seus aspectos estilístico, informativo e normativo, de modo a identificar e eliminar inadequações, por meio da retomada do texto. Concluímos então que muitos são os benefícios proporcionados pela revisão de texto e o porquê de ser extremamente viável deixar uma produção nas mãos de um bom profissional que, mais que favorecer a boa escrita e leitura, ampliará a articulação de ideias e auxiliará a detectar algumas – às vezes muitas – eventuais falhas que passariam despercebidas sem a análise meticulosa de uma revisão adequada e que definirão o prestígio que o texto terá.