14 de janeiro de 2015

Revisar os textos acadêmicos: de mal necessário à prática virtuosa

A revisão editorial de textos acadêmicos é uma série de procedimentos entre teoria linguística e prática aplicadas a teses e dissertações.

Já falamos de revisão de textos acadêmicos e científicos sob muitos aspectos e de diferentes pontos de vista. Ao longo dos anos e das tendências no contexto da pesquisa e estudos de revisão, tratou-se, de vez em quando, da própria história da revisão de textos e seu impacto na sociedade e cultura, da relação entre tecnologia e revisão de textos e de questões éticas ao se revisarem textos autorais e científicos. Apesar da variedade de abordagens, menos ênfase foi dada à revisão como “recipiente” de outras experiências importantes de linguagem e de reflexão prática. Muitas vezes, falando sobre a revisão, há a tendência para descrever, analisar e avaliar o resultado de um processo complexo sem considerar que, antes de se chegar à versão final do texto, existe o revisor que aplica, mais ou menos conscientemente e, às vezes, de muito diferentes formas, todas as ferramentas de leitura, análise, pensamento crítico, correção, modificação e correção que são parte integrante de qualquer atividade de aperfeiçoamento do texto. À primeira fase, na qual o revisor “se apropria” do trabalho seguem-se uma segunda, terceira e outras fases em que a revisão (geralmente é assim e espero que o processo inclua outro revisor) nas quais ocorre transformação do texto segundo parâmetros de controle e conformidade aplicados consonantes a prática de edição e revisão.
A obtenção de um título acadêmico requer assessoria de revisor de textos.
O processo de revisão da tese não
deveria ser apenas uma etapa antes
do depósito do trabalho aprovado,
mas é o que costuma ocorrer.
Talvez porque não exista exatamente uma teoria da revisão que se encontre nos textos como produto no mercado, a tentação costuma ser descrever o serviço da revisão em termos de fidelidade e perfeição. Na verdade, a revisão não é imune a essa combinação triste. Também aponto a tendência a analisar a revisão ou o texto com as balizas das mais diversas óticas linguísticas. No mercado ou entre pares, uma das principais razões de queixa entre revisores literários, acadêmicos e editoriais está em receber – por vezes suportar passivamente – comentários desabonadores do trabalho de revisão feito, apontando intervenções questionáveis ou omissões a que caberiam reparos. Com isto em mente, a revisão é processada como possível e falhas reais podem ser perpetradas contra o texto na feroz “caça ao erro” que, às vezes, impede o revisor de compreender as características estilísticas e linguísticas do texto original. Se o revisor está quase com a obsessão de um mantra para “não deixar passar nada” no texto, parece que o trabalho de revisão está sendo exercido com escrúpulo, forte e eticamente vinculado à razão de existir. Nesse pêndulo entre as necessidades práticas e os rigores da gramática e do estilo no registro formal, a revisão de um texto acadêmico se encaixa em um delicado jogo de equilíbrio: o que se faz “ingenuamente” como diálogo mudo e feliz entre autor e revisor, se torna, na verdade, uma polifonia onde se encaixam também vozes – nem sempre harmônicas – do revisor, do editor, o orientador e, mesmo que em silêncio, mas igualmente importantes, surgem o leitor ideal e a banca – quando se trata de uma dissertação, tese ou TCC.
A amargura, decepção e raiva que às vezes transparece das palavras de muitos revisores de textos de diversos gêneros deriva da falta de conhecimento e comunicação, entre revisores e autores e outros interferentes na produção textual, sobre os valores subjetivos e procedimentos técnicos envolvidos nas diferentes fases da revisão. O distanciamento do que acontece com nossas revisões, uma vez entregues, a constante inexistência de feedback, de acordo com as diretrizes e parâmetros (se houver) e não ter oportunidade de revisar as alterações que se seguem à revisão não ajuda a estabelecer relação de confiança entre as partes.
Embora muito diferente em cada perspectiva de gênero textual, as relações contratuais e do mercado estabelecem o escopo das revisões técnicas e especializadas e, mais especificamente, da revisão acadêmica; no entanto, devem ser tomados como uma indicação para o caminho que serve – pelo menos no papel – para tomar uma atitude mais consciente em relação às diversas fases de um texto, que são medidos, analisados e avaliados com base em critérios claros e explícitos e em conformidade com as normas de garantia de qualidade definidas por organismos externos e pela práxis, entre o processo principal de revisão e todos os outros aspectos relacionados ao serviço, e coloca o foco em outros requisitos básicos, incluindo recursos humanos (especialização e experiência dos revisores) e procedimentos de serviço.
A transparência entre todos os profissionais envolvidos no processo de editoração de um texto acadêmico – editor, orientador, autor, revisor – promove a qualidade do produto final. Anonimato dificulta a responsabilização e cria ambiguidade. A possibilidade de contatos entre as partes para a duração do processo é uma vantagem. O decálogo que se segue estabelece alguns parâmetros da relação editorial que podem suprir as lacunas de informação e comunicação entre os envolvidos na produção do texto científico:
  1. Durante o trabalho de editoração do texto (tese ou dissertação, normalmente), o autor deve escolher o revisor melhor adequado para o texto (possivelmente, também graças a um julgamento de mérito que o revisor experiente aceitará de bom grado), envolvendo a definição do público alvo, discussão das normas formais e critérios estilísticos.
  2. Antes de aceitar um serviço, o revisor terá visto o texto original e cuidadosamente avaliados a dificuldade linguística e prazos de entrega, com que se comprometerá, respeitando as orientações recebidas com o contrato.
  3. É desejável que o orientador seja identificado durante a fase de revisão, para que, se necessário, o revisor possa entrar em contato com ele durante o processo. Os problemas mais óbvios e inconsistências podem ser relatados nesta fase e resolvidas através do contato direto entre as partes. Tanto o revisor e o orientador devem ter acesso ao texto fonte em formato eletrônico, que fornece busca rápida e pode ajudar a evitar erros.
  4. O revisor deve explicar as escolhas e estratégias gerais, as dúvidas e as particularidades linguísticas, usando os comentários ou anotações em arquivos eletrônicos (uma carta de acompanhamento). O orientador deve ter em conta as considerações apresentadas (discutindo pontos controversos com revisor) e, se necessário, será sua vez de apresentar observações. A documentação e o controle das alterações devem seguir o manuscrito durante todo o processo.
  5. É desejável que o orientador tenha as habilidades de linguagem para entender a argumentação linguística, ou que reconheça a competência e experiência do revisor no campo que ele não domina. Caso contrário, a cooperação estreita com o revisor torna-se ainda mais complexa.
  6. O revisor ideal deve interferir sem impor suas próprias idiossincrasias linguísticas; antes de trabalhar com uma frase, deve perguntar não tanto se “pode” como se “deve” ser melhorada.
  7. O propósito da revisão é melhorar o texto produzido para que as escolhas finais sejam as melhores possíveis. Muitas vezes, o orientador também é o primeiro leitor, e as propostas de alteração que o revisor recebe são mensagens importantes. Comunicação é fundamental para criar uma atitude construtiva: será importante, em ambos os lados, o tom educado e colaborativo, independentemente do número de correções.
  8. Após a revisão, o autor receberá o arquivo com as alterações destacadas, para que ele possa avaliar as intervenções feitas. O autor tem o direito de receber primeiro o produto da revisão e, se o tempo o permitir, também submeter tudo ao orientador, em um procedimento ideal que raramente se verifica.
  9. Todos os profissionais envolvidos no processo de revisão requerem para seu trabalho um tempo razoável. Derrogações para os prazos, no caso das teses, não são viáveis na maioria dos casos e os profissionais devem ter completa consciência disso.
  10. Em resumo, o revisor, ciente de seu papel como mediador cultural, compromete-se a colocar à disposição durante todo o processo produção do projeto acadêmico, desde sua formulação até depois da defesa da tese ou dissertação.

O grande entrave e obstáculo a toda essa boa prática é o custo desse procedimento ideal, que força os envolvidos a pular etapas e cortar pessoal no que seria a editoração de importantes textos. Reduz-se o processo de revisão e ele é transformado em interferência pontual sobre as quais as críticas incidem sem critério e sem contraditório.