20 de janeiro de 2015

Produção, discurso e revisão de textos acadêmicos

A construção textual tem sua complexidade, seu discurso particular e seus problemas; ela é difícil para muitos e mesmo impossível para outros. É por isso que existem os revisores de texto.

Produção textual e revisão acadêmica

A folha em branco era uma grande barreira, as coisas evoluíram bastante e agora a barreira pode ser... a tela do Word em branco! Claro que essa ideia de “branco” tem seu folclore, mas também tem uma parcela de verdade, pois existe mesmo um bloqueio em qualquer início de comunicação. Existem mecanismos para romper essas barreiras. Na verdade, elas caem por si – na maioria das vezes. Voltando à complexidade e aos problemas, existem questões específicas que se tornam obstáculos à qualidade do texto científico, fazendo ainda mais necessária a revisão nele.
Revisão de tese e dissertação requer olhos treinados.
O texto acadêmico tem
discurso específico para
o qual se requer revisor
 especializado.
Sempre se diz que primeiro passo para desenvolver boa escrita é desenvolver o hábito da leitura de bons livros. Claro que isso não se nega, mas, sob certas circunstâncias, os livros podem ser a origem de muitos dos problemas da escrita. Eu mesmo fui alfabetizado e tive imediato acesso a livros velhos, com ortografia antiquada (e isso foi problema para muita gente, de novo, posta a implementação do Novo Acordo Ortográfico), assim como à literatura em espanhol e francês. Tal circunstância me levou a desprezar a ortografia a passar a fazer uma leitura global e pouco atenta à grafia. Da mesma forma, muitos autores acadêmicos sofreram e sofrem influências multilinguistas, o que trás a seu texto vernáculo construções daquelas outras línguas. Cada vez mais globalizada, a ciência tem o inglês como língua franca atualmente, mas o espanhol, francês e muitas outras línguas são lidas em profusão por nossos cientistas. Se toda essa leitura amplia vez mais o acervo lexical, contribuindo assim para o desempenho linguístico, ela costuma introduzir prejuízos de sintaxe e estilo, sem falar nas incorporações equivocadas de falsos cognatos. Dessa forma, dúvidas ortográficas, questionamentos acerca da concordância, regência, entre outros, vão aos poucos sendo inseridos nos textos. O paradoxo aqui é que o texto científico tem problemas derivados da grande quantidade e multiplicidade de leituras de seu autor.
Outros fatores contribuem para os problemas do texto científico. Muitas vezes, a pressa da redação é um deles. O pesquisador pode ter se dedicado o máximo a seus experimentos e a obter ou analisar dados, ficando a redação premida pelo prazo final. A pressa é inimiga da redação! Mais um fator a prejudicar a qualidade do texto é derivado exatamente da extrema facilidade de introduzir mudanças nele: corta aqui, emenda ali, muda uma frase e um parágrafo de lugar... E acaba havendo lacunas, omissões, falta de concordância e mil probleminhas. Existe também a questão da coautoria: muitos mexem no mesmo texto, algumas vezes o próprio orientador – quando se trata de tese ou dissertação, sem que um se dê conta do que outro modificou. Tanto muda aqui e ali, acaba o autor – ou redator principal – não se dando conta das falhas, passa mesmo por elas sem se dar conta de sua existência de tão familiarizado que está com o produto. Leu tanto que não vê mais o que está escrito, já julga saber o que o texto diz, mesmo que o texto diga diferentemente do que deveria.
Por essas e tantas outras é que, no texto científico, a revisão profissional é premente. O revisor nunca teve contato com aquele texto e fará dele uma leitura privilegiada por seu conhecimento linguístico, por seu treino no ofício e pelo direcionamento das questões que colocará ao texto. Mas lembre-se: o revisor também precisa de tempo para seu trabalho. Não existe revisão “rapidinha”. Quem diz que revisa uma tese de um dia para o outro está mentido. Combine o serviço de revisão antes de terminar o texto, veja quanto tempo o revisor vai precisar, e coloque esse prazo em seu cronograma – para não correr o risco de ter seu trabalho “aprovado com restrição” pela banca, que o remeterá à revisão se não chegar a ela com o texto satisfatório. Ninguém quer também ter o texto devolvido sem publicação pelo periódico a que foi remetido por falta de revisão.

Estruturação de textos acadêmicos

O trabalho do cientista não se esgota nas descobertas que faz. É de sua responsabilidade comunicar os seus resultados, suas descobertas, suas criações. Sendo assim, a escrita acadêmica caracteriza-se como um processo de comunicação muito importante, pois uma descoberta científica torna-se reconhecida através das publicações de seus resultados. Entretanto, escrever não implica em, necessariamente, comunicar com eficiência. Um trabalho escrito sem cuidado, sem a preocupação em guiar o leitor proporcionando-lhe uma leitura esclarecedora e agradável, não está comunicando como deveria, até porque ninguém se dispõe a ler um trabalho confuso e de leitura desestimulante. Dessa forma, para que um trabalho seja bem escrito e, consequentemente, comunique bem o seu propósito, é preciso atentar a uma série de fatores, tanto do seu conteúdo quanto da sua estrutura.
Antes de se começar a escrever deve-se considerar a estrutura do texto que se pretende redigir. Para isso, deve-se estabelecer um esquema que permita expor as ideias de maneira sistemática e lógica, reunindo em cada item assuntos correlatos, sem risco de omitir ou de repetir as mesmas coisas ao longo do trabalho. Um trabalho científico pode enquadrar-se, em geral, dentro de um esquema que já se tornou clássico pela simplicidade, pelo desenvolvimento metódico e por abranger aspectos essenciais de uma comunicação científica desse gênero.
Esquema estrutural do texto científico para revisão.
A estrutura formal do texto acadêmico é canônica; não varia
quer seja um artigo, dissertação ou tese. Há variações entre
as diversas áreas do conhecimento, mas não são grandes.
Essa estrutura pode ser enunciada como Introdução — Desenvolvimento — Conclusão, sendo que o Desenvolvimento pode desdobrar-se nas seções de Materiais e Métodos e Resultados, ou ainda Materiais e Métodos, Resultados e Discussão. Essa forma de estruturação tem como objetivo apresentar o texto a partir do contexto no qual ele está inserido.
O Resumo aparece de  forma destacada na figura por ser componente independente do restante da estrutura. Devido ao fato de conter informações relativas a todo o texto, tanto gerais como específicas, o Resumo não segue o movimento da estrutura global apresentada. Sendo assim, pode-se definir um plano padrão para estruturação esquemática de textos acadêmicos, contendo os seguintes componentes: Resumo, Introdução, Materiais e Métodos, Resultados, Discussão e Conclusão.
No final da introdução, o autor pode dar ao leitor um roteiro do que será encontrado no restante do trabalho. Esse componente é chamado de outline. O outline pode ser tanto uma indicação das seções do artigo (ou capítulos de uma tese/dissertação) como um apanhado dos assuntos abordados no trabalho na ordem em que aparecem. (V. D. Feltrim).

A revisão e o discurso acadêmico

O discurso acadêmico ou científico é a forma de apresentação da linguagem que circula na comunidade científica em todo o mundo. Preservar e valorizar essa construção é função do revisor de textos acadêmicos, pois a formulação desse tipo específico de redação depende de pesquisa minuciosa e efetiva sobre um objeto, que é metodologicamente analisado à luz de uma teoria, que deverá ser resguardada por profissional qualificado. Pela revisão se preservará a comunicabilidade do que foi analisado está expresso por este gênero textual para divulgação da referida pesquisa. A comprovação ou refutação do que foi escrito se dará pela aceitabilidade do público que compõe a comunidade específica.
A estrutura global de enunciação do discurso acadêmico está fundamentada nas convenções instituídas há décadas pela comunidade científica, com características bastante específicas e conservadoras que especificam os seguintes atributos: impessoalidade, objetividade, clareza, precisão, coerência, concisão e simplicidade.
Estes requisitos não são seguidos sempre, por exemplo, é comum que as pessoas não escrevam de forma simples, pois escrevem mais para impressionar que para expressar, tornando-se verborrágicas. Tornam, então, o discurso prolixo ou confuso.
Mas o caráter argumentativo imprime no discurso acadêmico, sempre,  uma “certa” subjetividade e parcialidade do pesquisador na escolha dos elementos linguísticos que comporão os seus escritos na tentativa de persuadir o leitor da veracidade dos fatos explicitados, daí a necessidade de se fazer a revisão do discurso acadêmico baseada na convergência, na integração, da Linguística Textual com a Análise do Discurso para dar conta da inter-relação estabelecida entre os gêneros textuais, os mecanismos de construção textual, os aspectos sócio-histórico-ideológicos e a intencionalidade do autor (Carioca, C. R). Você já deve ter se dado conta de que revisão de textos é algo bem mais complexo que correção gramatical.