Revisão de textos: linguagem técnica e científica

Para fazer a revisão de um texto técnico ou científico, seja ele uma tese, dissertação, artigo ou relatório, projeto ou parecer, o revisor necessita de muito tempo, devendo também recorrer a uma lista de checagem, um roteiro preciso de tudo o que precisa ser feito.

Pode-se dizer que a revisão seja a terceira fase do processo de escrita: vindo depois do rascunho e das reescritas. Por não ser estática, a revisão pode ser feita durante qualquer fase da produção do texto. Com a função de garantir que os objetivos iniciais sejam alcançados, a revisão assegura que as restrições  impostas por normas ou pelo costume sejam respeitadas, que o conteúdo esteja apropriado e que a forma tenha a qualidade desejada.
A ciência e a tecnologia requerem constantemente revisores de textos.
Os textos técnicos e científicos têm
demandas que serão atendidas apenas
por revisores especializados.
Para estabelecer a formalidade necessária, cuidadosas releituras devem ser feitas a fim de depurar os erros de ortografia e de digitação que não tenham sido identificados pelo corretor ortográfico eletrônico. Ao lado deste controle – que podemos chamar de superficial – o revisor precisa, em sucessivas leituras, fazer profundo controle que reconsidere o projeto do texto e assim corrigir quaisquer desvios em relação aos objetivos primeiramente definidos.

As leituras do texto

Cada leitura é um passo do processo de revisão e é ordenada e com foco em determinado aspecto. Porém, todas se processam a fim de detectar falhas e insuficiências, mesmo que haja leituras que confiram especificamente aspectos mecânicos (ortografia e sintaxe) e outras que se atentam à coerência. Leituras específicas podem ser efetuadas:
  • Para verificar o conteúdo. Nesse tipo de leitura, o revisor precisa entender o significado do texto, devendo esta ser feita a priori. A leitura deve ser exata e contínua, com o intuito de verificar o conjunto abordado de forma abrangente, e pode ser facilitada através da comparação do texto com o índice.
  • Para controlar a forma. Este tipo de leitura é feito para controlar o estilo e garantir a compreensão, o rigor e a elegância de expressão do texto. De forma fragmentada, o revisor analisa o texto frase por frase, procurando as frases que soem mal e verificando a fluência ou eventual presença de elementos perturbadores. Para melhorar a forma do texto são utilizados dicionários e listas de verificação.
  • Para verificar a ortografia. A visão linguística do texto ocorre por meio de uma varredura visual precisa e da utilização do verificador ortográfico no word. Nessa etapa, o profissional contratado deve sair à procura de possíveis erros de digitação não detectados no corretor automático e até alguns que os próprios editores de textos costumam inserir. O revisor bem capacitado saberá o que e onde procurar, pois possui tal prática.

Os tipos de erros mais frequentes na elaboração de um texto são:
erros de digitação;
erros ortográficos;
erros de sintaxe;
erros léxicos.

Grande parte deles pode ser resolvida com a ajuda do corretor ortográfico, dicionário, dicionário de sinônimos e antônimos (thesaurus), dicionário bilíngue e dicionários on-line.

Também de grande importância, outro aspecto que necessita de atenção em um texto mais longo é a progressão temática. Para que ela exista adequadamente na redação de uma tese, por exemplo, é essencial que o revisor verifique a coesão – que é a condição de inteligibilidade, além da existência e da aplicação adequada e equilibrada de elementos linguísticos para bem conectar os segmentos do texto. Se não há coesão, podemos até falar sobre uma “coleção” de palavras, mas inexiste texto. A fluência de um texto é reduzida quando:
  • As partes que ligam um parágrafo ao outro não estão devidamente conectadas entre si;
  • Há textos traduzidos de uma língua estrangeira, em que a progressão temática não é respeitada;
  • O sujeito de uma sentença é o argumento, o assunto lógico, psicológico ou comunicativo, que muitas vezes – mas nem sempre – coincide com o sujeito gramatical. É também conhecido como o tema da frase. O rema, por sua vez, representa  o que o autor diz sobre o assunto.

Geralmente, o assunto (tema) é uma informação dada (já conhecida pelo leitor),e o rema é a nova informação. A ordem dos elementos da frase pode ser entendida conforme o seguinte:
  • Primeiro item: sujeito;
  • Segundo item: verbo e seus complementos;
  • Rema: dado novo.

Sintetizando, o tema é o sujeito gramatical e o rema é o predicado verbal. A cada tópico ocorrem comentários concatenando ideias em palavras, dando origem a diferentes tipos de progressão temática. A progressão então é a maneira pela qual são introduzidas e incorporadas as ideias nos tópicos do discurso, e podem ser separadas em várias modalidades:

Um tema em progressão constante

As sentenças de progressão constante alinham os temas uns aos outros, mantendo a sequência temática. O formato de apresentação das informações é muito simples: prende-se o tópico do discurso e adiciona-se o novo conteúdo que lhe diz respeito. Manter o sujeito sempre com o mesmo nome pode tornar o texto monótono, por isso o revisor fará alternações caso o autor use repetições literais, imprecisas e exageradas.
“As creches e escolas infantis são benefícios necessariamente concedidos pelo município. Ocupam quase um terço dos funcionários municipais e são caracterizadas pela presença de pessoal altamente qualificado.”

Progressão temática linear

Na progressão linear, as frases se ligam umas às outras usando a linha da frase anterior: a linha é reutilizada como tema. O risco desse tipo de progressão é desenvolver um discurso pouco dinâmico ou fragmentado, como por exemplo, o uso sistemático do mesmo mecanismo para reinício da rema.
“O curso termina com um teste. O teste consiste de uma série de perguntas sobre os tópicos das aulas e discutidos os slides. Os tópicos e slides estão disponíveis para os alunos.”

Progressão em quadros

É a progressão em que são introduzidos tópicos desenvolvidos em sequência. O autor exibe a parte panorâmica primeiro e, depois, apresenta os elementos individualmente, um por um. Por razões de clareza e elegância, é boa prática retomar os argumentos na mesma ordem em que eles foram listados, o que o autor às vezes deixa passar. Cabe ao revisor verificar as ordenações, a respectividade e a paridade na apresentação das sequências e agrupamentos.
“A análise identificou dois objetivos estratégicos: melhorar a qualidade do serviço e reduzir os custos.”

Progressão por derivação de hipertema

A progressão, para derivar o hipertema, introduz um tópico e o divide em subtemas que são então desenvolvidos um a um. O tópico subtema é então reconstruído pelo leitor, graças ao conhecimento que já possui, porém exige deste esforço adicional: ele deve identificar tópicos específicos como subtemas do tema principal.
“Boa compatibilidade ambiental foi demonstrada por instalações onduladas: o material utilizado é totalmente recuperável e reciclável; a rapidez de montagem também limita a duração dos locais de construção, com o inconveniente que dela decorre; as estruturas são delgadas e facilmente integrada na paisagem com atenuações simples.”

Compreensão e especialidades da sentença: linguagem corporativa

É a linguagem usada pelos membros de uma empresa quando eles falam do trabalho e sua organização. A linguagem corporativa é um subtipo de linguagem técnica, muito empregada em nossos dias. O revisor que atue com textos corporativos estará familiarizado com o jargão. Por exemplo:
  • Linguagem da economia e finanças: usada nos sistemas bancários, de crédito, câmbio, valores imobiliários;
  • Linguagem da ciência da computação: usada nos ambientes de TI;
  • Linguagem da publicidade: comum nos ambientes jornalístico e de marketing em geral;
  • Linguagem da administração: estendida aos campos da contabilidade, gestão de pessoal e tributação.
E há mais características inerentes à linguagem científica, características que se podem reconhecer, mas que é necessário saber lidar com elas, dando leveza ao texto e não o complicando mais que o necessário. Vejam algumas peculiaridades a serem ponderadas na revisão do texto:

Uso de estrangeirismos

Cada vez mais há abuso da utilização de palavras estrangeiras, especialmente do inglês, já que se popularizou o desejo de passar uma impressão de vanguarda nas produções textuais. Sobre a variedade de vocabulário, tendência mais óbvia é a de empréstimos de termos técnicos. Alguns empréstimos são morfologicamente adaptados para o português, criando os neologismos.

Parêntesis: uso e restrições

São os itens colocados na frase para interromper temporariamente as sequências principais de informações. As informações parentéticas podem ser representadas por preposição, conjunção, pontuação ou outros sinais e são atributos que, se eliminados, não afetarão a formação gramatical da frase. Vírgulas, travessões ou parênteses são frequentes nesse mecanismo, mas é preferível a utilização de travessões (vírgulas inglesas), como utilizado no terceiro parágrafo do presente texto.

Coesão: problemas de ambiguidades

Pode ocorrer caso duas expressões se refiram ao mesmo objeto, mas a identidade da referência não é reconhecida. Desta forma, um significado já afirmado no texto é retomado por meio de pronomes, substantivos ou qualquer outra forma de referência, por morivos de elegância ou brevidade, exigindo que o leitor aplique conhecimento extratextual para a sua compreensão, que poderá solicitar do leitor inexperiente um desempenho superior às suas forças.

Ordem dos elementos da frase

É a seqüência em que o jogador tem acesso ao sujeito, ao verbo e ao complemento, tornando o texto mais fácil de ser entendido. A ordem básica da frase italiana é sujeito + verbo (+ acessórios). Muitas vezes a ordem dos termos  pode gerar ambiguidade de interpretação: por esta razão, torna-se necessário decifrar as palavras de forma diferente. Além da ordem, há também um valor de ordem gramatical, onde antes devem entrar as informações já conhecidas, para depois introduzir novas informações.

Frases: use sabendo o que elas são

Expressões recorrentes são típicos da linguagem dos meios de comunicação. O recurso frequente à banalidades apresenta uma exposição repetitiva e não muito refinada, algo frequente nas letras de um inexperiente e na linguagem jornalística de baixa qualidade. São expressões construídas sobre metáforas, expressões que contêm pares de termos geralmente associados, títulos tipicamente famosos e termos burocráticos, casos em que cabe ao revisor estabelecer um aspecto mais profissional e esteticamente superior ao texto.

Registro da linguagem técnica e científica

Usada pelo autor para falar de uma certa disciplina em um estrito (tópicos técnicos e científicos, direito, linguística, etc.). É uma linguagem que possui características muito específicas e que requer revisão especializada. O revisor terá muitos pontos a que se ater que transcendem as linguagens literária e do cotidiano, por exemplo, o amplo uso de símbolos científicos e termos técnicos. 
Os símbolos científicos estão sujeitos às regras estabelecidas pelo sistema internacional de unidades, impondo uma série de esclarecimentos terminológicos em relação às normas, siglas, unidades de medição e o sistema decimal a ser seguido em todos os documentos oficiais dos países que o aderem.
Os símbolos são invariáveis, devem ser escritos sem negrito ou itálico e sem ponto final. São digitados geralmente em letras minúsculas, mas quando, por exemplo, a unidade leva o nome de um substantivo próprio (como “Coulomb”), a forma é mantida.
Há muitas outras especificidades na linguagem técnica e científica a que o revisor estará atento; veja essa lista que não esgota o tema:

1. Vocabulário científico

  • É enriquecido pelo vocabulário usado dentro de uma disciplina específica e palavras com apenas um significado.
  • Utiliza do significado denotativo, sem conotações ou “rodeios”.
  • Define especificamente palavras de significado comum à área (por exemplo: campo => campo magnético);
  • Forma novas palavras para atender às necessidades do contínuo progresso científico, muitas vezes utilizando empréstimos de outras línguas;
  • Evita proliferação de sinônimos: cada palavra tem uma definição única e rigorosa;
  • Recorre ao uso de símbolos e siglas.

2. Sintaxe do texto técnico

  • Tendência a preferir substantivos a verbos;
  • Uso de formulas de passivação.

3. Estrutura do discurso técnico e científico

  • Bem organizado e facilmente reconhecível;
  • Dividido em unidades estruturais: índice geral, parte introdutória, desenvolvimento e conclusão, utilizando sempre estruturas padrão.

4. Uso de gráficos e tabelas nos textos técnicos

  • Inseridos por serem funcionais para a compreensão do discurso e do conteúdo.
  • Não decorativo, transmitindo limpeza estética.
  • Requer o uso de tabelas e ilustrações.