O processo de revisão e a qualidade do texto final

A revisão de texto pode ser definida como um processo de aferir a correção, precisão, completude, adequação de estilo e de gênero do texto como mídia em construção, com efeitos nas fases subsequentes da criação e edição.

Processo de revisão e revisores de textos

O processo de revisão de um texto só pode ser feito por um revisor que não tenha tido nenhum contato com o texto durante as etapas de seu planejamento e redação. Aos processos de transformação e aperfeiçoamento efetuados pelos autores nos textos durante sua criação chamamos autorrevisão: ela é estudada especialmente como parte da abordagem orientada para o processo de produção textual. A revisão externa (alterna) recebia pouca consideração por parte da teoria da revisão até recentemente. Isto era surpreendente, dada a importância que a revisão desempenha na prática profissional.
A revisão linguística é cada vez mais solicitada pelo mundo todo.
A revisão de textos abrange elementos
cuja complexidade está além da
compreensão da maioria dos autores.
Na verdade, se a figura do revisor era frequente, especialmente em organizações do mundo editorial, hoje sua presença está se disseminando cada vez mais também entre empresas de tecnologia e comunicação, sempre em busca de garantia da qualidade nos textos, condição de credibilidade das marcas. Também se destaca a busca pelos serviços de revisão profissional para os textos científicos e acadêmicos, gêneros cuja produção e publicação tem se expandido largamente.
O modelo de revisão de qualquer texto pode ser dividido em um número de subprocessos dos quais o primeiro – a avaliação, está destinado a influenciar todos os outros, desde a definição da tarefa à conclusão. Essa fase preliminar deve especificar, entre outras coisas:
  • as características do texto a ser revisado: qualidade, gênero, tamanho, clareza...
  • objetivos do autor: publicação (livro, artigo), defesa (monografia, dissertação, tese), vendas, orientações (manuais)...
  • aspectos organizacionais: orçamento, organizar a revisão e programar suas etapas, cronogramas, pessoal.

Os objetivos do texto e da revisão

Objetivos da revisão são ditados principalmente pela finalidade prática do texto, ou seja, a publicação do texto por uma grande editora, que requer um texto de alta qualidade, ou a apresentação do produto a uma banca de tese, que requer máximo rigor – por exemplo. No entanto, é inevitável que na definição da tarefa de intervir, de uma forma mais ou menos consciente, subsiste a noção de que o revisor individual ou a melhor equipe de revisão dependem da interação com o autor para afinar os critérios e sentidos do texto. Em poucas palavras, podemos dizer que o revisor partilha a produção do texto, em abordagem funcionalista, construindo com o autor, e com as palavras dele, a melhor expressão do que o texto visa comunicar. Nesse sentido, o objetivo da revisão é orientado pelos objetivos do autor e do texto.
Os aspectos funcionalidade e fidelidade têm impacto prático sobre o processo de revisão. O conceito de funcionalidade (legibilidade, textualidade...) influencia diretamente as fases posteriores da revisão e os procedimentos práticos que visam melhorar o texto. É interessante lembrar que o autor está em causa, até mesmo na pesquisa psicolinguística sobre a revisão em geral; ele é um sujeito no processo de revisão e, preferivelmente, deve assumir papel ativo nela. Por exemplo, o sentimento de dissonância causada pela antecipação do julgamento do leitor faz o autor reconhecer incongruências existentes entre suas intenções e a realização delas no texto produzido.
O outro conceito, fidelidade ao texto original, certamente influencia a revisão e ação corretiva; no entanto, o efeito mais imediato é sobre a definição da tarefa e, mais especificamente, de aspectos organizacionais, como a decisão de realizar comparação contínua entre original e o texto revisado. Seria errado pensar que revisar um texto sempre implica exclusivamente a análise e correção do texto original: a leitura paralela e a manutenção dos controles de alterações a fim de verificar o conteúdo são tarefas essencialmente da competência do revisor, mas há bem mais que isso. O revisor está mais vezes à beira de se mover entre alternativas dos textos que o autor, especialmente em condições de urgência (tão comuns) em que o trabalho deva ser feito; no entanto, o princípio de fidelidade ao texto original é sempre condicionante, se não for determinante.

A organização do trabalho da revisão

A importância de aspectos organizacionais está ligada à representação de situações reais, mas também ao fato de que elas interferem no produto da revisão.
Primeiro, considere o que deve ser a situação ideal que para fazer uma revisão. O revisor deve ter em mãos o texto concluído, completo, integral, no sentido de que o autor, como normalmente esperado em modelos teóricos, deve ter tido a oportunidade de ler e analisar todo o texto, reescrever e considerar todas as passagens e o conjunto para, em seguida, encaminhar à revisão. Por sua vez, o revisor deve ser colocado em posição de pelo menos ler todo o texto, a fim de alcançar uma definição global de sua tarefa. Além disso, na implementação das fases subsequentes da revisão (revisões primária, secundária... ), ele deve ter a máxima liberdade para fazer as intervenções e depois submeter tudo ao autor – para dar início à discussão.
A definição da rotina colocada no parágrafo anterior não deve ser entendida como algo estático, mas como procedimento dinâmico que pode ser modificado no decorrer da revisão. Na verdade, alguns experimentos sugerem que uma das características que distinguem os revisores especializados dos iniciantes é saberem como adaptar sua tarefa com base na interação dialógica entre eles e o autor para tratar os problemas específicos colocados pelo texto.
Mas as condições de custos e tempo impostas pelo contrato não permitem uma leitura preliminar do texto integral de qualquer autor pelo revisor. Como resultado, a adaptação da tarefa de acordo com os problemas que vão surgindo ao longo da revisão é o que mais se aproxima das práxis revisionais. Esse desvio de modelos ideais pode afetar a qualidade da análise e especialmente a consistência e a uniformidade do texto final. Note-se que essa situação, embora apresentando a desvantagem mencionada acima, não impede a interação contínua entre autor e revisor. O revisor deve ser capaz de se aproximar gradualmente das expectativas do autor, facilitando um o trabalho do outro, com benefícios para o produto. 

A escolha da estratégia revisional

A cada perspectiva de intervenção o revisor procede escolha estratégicas sobre a ação a ser tomada uma vez definida a sua tarefa. Os autores distinguem entre:
1 – estratégias que afetam o processo de revisão:
a) ignorar (o problema);
b) adiar (o esforço para resolver o problema);
c) busca (mais informações para resolver o problema);
2 – estratégias que modificam o texto diretamente:
d) reescrita;
e) revisão.
Se, por um lado, essas estratégias parecem bastante óbvias, vamos renunciar a aprofundar essa discussão aqui. Há outra postagem em que tratamos do assunto com mais atenção, ultrapassando a obviedade aparente de que a questão se reveste.

A qualidade da revisão

Tendo descrito os processos envolvidos na revisão, analisaremos mais de perto a relação entre algumas variáveis relacionadas a eles e a qualidade do produto acabado. Em particular, considere três questões: o desenvolvimento dinâmico da definição de tarefa, a relação entre a qualidade da tradução e a qualidade da revisão e do grau de tolerância do revisor.

Desenvolvimento das tarefas definidas

Como foi já referido, um revisor competente não deve permanecer ligado à definição inicial de sua tarefa, mas ser capaz de ultrapassar o projeto, adaptando-se continuamente à evolução da situação. Isso pressupõe, no entanto, também a possibilidade de aplicar procedimentos de emergência em caso de premência. Se essa condição ocorre no caso em apreço, tanto para o cumprimento do prazo quanto para garantir a máxima qualidade do texto, adotam-se interferências do conjunto para as partes, de modo a que o texto se encontre o mais perto possível do ideal ao cabo da tarefa. Note-se que tem havido mudanças substanciais em termos de estratégias a nível macro, no entanto, posterior análise pode apontar falha em problema específico com repercussões sobre a qualidade da revisão. Vicissitudes da urgência.

Qualidade e controle da revisão

Como tem sido apontado, revisão é tarefa complexa que implica muitos processos cognitivos distintos; essa complexidade, no entanto, depende não só a habilidade e da capacidade do revisor (e quase escusado será dizer), mas também das características do texto a ser revisado. A quantidade verificada e a variedade de intervenções necessárias, especialmente nas fases iniciais do trabalho, estão gravadas na qualidade do produto acabado; se há sobrecarga de intervenções, ocorre bloqueio à ação adicional que pode ser, inclusive, mais necessária, ou por outra, o coeficiente de milagres que o revisor faz, principalmente em função do tempo disponível, é inversamente proporcional à quantidade de problemas encontrados. Também se tenta seguir a evolução da revisão a fim de determinar se é necessário melhorar mais do que está sendo praticado ou interferir menos. Talvez se deva especificar que “melhoria” significa uma evolução obtida pelo revisor, ou seja: uma redução do fosso entre o que o revisor entende como melhor e o que o autor propôs inicialmente.

A tolerância do revisor

No decurso de um trabalho longo e complexo, maior tolerância pode ser induzida por vários fatores: a qualidade do texto, com consequente aumento na confiança dos revisores no âmbito da competência do autor; o hábito de certos revisores de acompanhar escolhas individuais do autor; a crescente automação no processo de revisão; o desejo de completar o trabalho, fadiga humana, saturação de imagem e muitos outros.

Breve conclusão

O mais importante aspecto dessa análise é a não linearidade e não uniformidade da revisão, em particular, no referente à definição da tarefa do revisor e seu impacto sobre todos os processos subsequentes. A versão revisada vai sempre melhorar a versão precedente e somente em condições muito excepcionais isso não ocorre, por menos preparado que seja o revisor, por maior urgência que haja, por pior que seja o texto. Mas vamos enfatizar, mais uma vez, a importância da análise cuidadosa do texto e o preciso e consciente planejamento inicial conjunto por parte do autor e do revisor. Ler alguns capítulos do texto antes de iniciar a revisão real, por mais difícil que isso seja, permite identificar os principais problemas a serem abordados e chegar a uma definição dos procedimentos mais adaptados à tarefa específica.
Adaptado de Magris.