8 de novembro de 2014

Textos médicos – tipologia e revisão

A crítica a médicos que não sabem como escrever bem não é nova. Desde os tempos antigos, encontramos casos de médicos que criticam seus colegas.

Profissionais de saúde escrevem geralmente sobre sua especialidade em uma linguagem que é jargão, que não pode ser compreendido por aqueles que não estão trabalhando na especialidade em questão. Transparência e clareza são as principais características requeridas da comunicação médico-paciente escrita ou oral. Para alcançar uma comunicação eficaz com seus pacientes, os médicos devem usar uma linguagem que até mesmo os não-iniciados sejam capazes de entender.
Linguagem é representação, assim
como as imagens. As duas formas
de comunicação devem ser adequadas
ao púbico a que se destinam.
O revisor de textos aperfeiçoa a
linguagem e a comunicação.
O médico tem a propensão para palavras muito sofisticados e especializados, como se o idioma representasse um símbolo de status para impressionar seus ouvintes. O médico deve estar sempre ciente das diferenças que podem existir entre seu conhecimento e dos seus pacientes, aprendendo a usar os termos dentro do código linguístico do menos informado.
Infelizmente, isso é muitas vezes ignorado pela maioria dos médicos que continuam a seguir sua própria tradição de terminológica ao produzirem material educacional para o grande público. Essa situação certamente não facilita o trabalho do revisor de textos.
Para ter uma ideia sobre o que a escrita médica, vá na Wikipédia, onde encontramos a definição em inglês:
Escrita médica é a atividade de produzir documentação científica por um escritor especializado. O médico escritor normalmente não é um dos cientistas ou médicos que realizaram a pesquisa.

Tipos de textos médicos

A comunicação linguística ocorre sempre em contexto particular, onde um emissor envia uma mensagem para um destinatário usando um código para comunicação que deve ser claro e compartilhado por ambos. A comunicação por texto, para resguardar as características de clareza e rigor no compartilhamento, teve passar pelo crivo do revisor de textos visando garantir a eliminação de ruídos comunicacionais decorrentes de erros na norma linguística ou de ambiguidades e segmentos obscuros ou excessivamente densos.
A linguagem médica tem diversas funções que se podem distinguir, dentre as quais apontamos:
  • função descritiva;
  • função instrutiva;
  • função normativa – leis de saúde;
  • função metalinguística – dicionários, enciclopédias;
  • função fática;
  • função expressiva.
As duas funções essenciais para a comunicação médica são função descritiva e instrutiva (funções denotativas).
A função descritiva é particularmente importante, pois o progresso e atualizações contínuas na medicina exigem a divulgação de informações médicas de maneira eficiente e as mais claras possível. Essa comunicação é realizada pela literatura médica que inclui grande variedade de publicações. Seu estilo deve ser impessoal, sem qualquer avaliação subjetiva. Pode ser encontrada nos trabalhos de pesquisa e publicações médicas.
A função informativa é muito frequente na linguagem médica quando se trata de dar conselhos, instruções, recomendações. Podemos encontrá-la especialmente nos manuais ou nas várias práticas clínicas. Não se trata de  prescrever ou proibir certas ações, mas para fornecer orientação para a conduta pessoal.
A função metalinguística visa ilustrar e explicar fenômenos linguísticos, seu significado e uso. É a linguagem dos dicionários e enciclopédias.
Existem três situações que refletem diferente uso comunicativo da língua em relação ao interlocutor real ou imaginário no que se refere à linguagem estritamente técnica. Todas as três podem ser encontrados na comunicação médica:
  1. Interação entre especialistas na área, onde um especialista se dirige a outro usando tecnicismos – emprega-se em registros médicos, literatura científica, revistas internacionais, conferências, seminários internacionais e conferências - incluindo a interação por meio dos textos científicos, quer sejam livros, teses ou artigos acadêmicos.
  2. Interação entre um especialista e um aluno usando a linguagem especial – ensino, estudo de manuais etc.
  3. Interação entre um perito da indústria para um não especialista usando linguagem comum – médico/paciente entrevistas, revistas de divulgação, etc.

Revisar textos médicos

A revisão de textos médicos é a mais antiga e universal de todos os tipos de revisão de textos. Há pelo menos três razões pelas quais ela é necessária e que interferem no texto como produto:
  1. O assunto do texto a ser revisado, a saúde, as patologias, o funcionamento e as necessidades do corpo humano e suas funções são de interesse universal, não é comparável a qualquer outro assunto. A este respeito, a tarefa do revisor de textos é simplificada pelo fato de que os elementos de anatomia e fisiologia, que formam a base da comunicação médica, são exatamente os mesmos em todo o mundo, são universais e constantes.
  2. A disponibilidade e a disponibilidade de fontes bibliográficas (enciclopédias, livros, jornais, dicionários) cobre todas as grandes culturas e suas variantes.
  3. A equivalência léxica, pelo menos para línguas ocidentais, é tão grande que quase se pode falar sobre a uniformidade da terminologia. Não só quase toda a terminologia baseia-se no léxico greco-latino, mas, ao se formar palavras novas, ainda se usam prefixos e sufixos que têm a origem greco-latina.

A importância da revisão de textos médicos pode ser mostrada de várias maneiras e, nesse sentido, existem alguns pontos importantes a destacar:
Elementos da tipologia linguística revelam formas lexicais diferentes e conceituação semântica, lexical e sintática com soluções específicas em cada campo gnoseológico.
Através dos tipos de textos (acadêmico, científico, informativo, publicitário) podem-se ver as diferenças entre um texto-fonte e texto de destino no âmbito da estruturação do discurso em um determinado registro. Dificuldades podem surgir se o registro de origem e de destino são diferentes.
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Por exemplo, há quase sempre um sinônimo coloquial para expressão técnica, mas os termos coloquiais variam territorialmente, inclusive entre regiões de mesmo idioma. Observando parâmetros sociolinguísticos, elementos culturais e regras aplicadas coloquialmente, pode-se perceber as diferenças culturais entre diferentes registros e idioletos.
O trabalho de um revisor de textos médico hoje não é um trabalho simples. No que diz respeito ao léxico, a situação é complicada; muitas vezes, há um termo apropriado a ser escolhido entre muitos termos que parecem estar todos em uso. Isso ocorre também graças ao forte desenvolvimento de pesquisa, que contribuiu para a criação constante de novas palavras, ou para a adaptação de palavras já existentes, dependendo de suas necessidades, podendo alterar seu significado drasticamente. No que tange à sociolinguística e à pragmática, o papel do revisor de textos médicos é se estabelecer como mediador entre o autor-médico e o público a que o texto se destina; o público pode variar entre diferentes populações regionais ou bancas que examinarão teses ou dissertações, ou mesmo um leitor par que examinará o texto para a publicação científica.
Adaptado de Arsic.