Modelo de revisão para manuais de operação

Existe um modelo proposto para a revisão de textos procedimentais, seja um manual para o usuário, seja um guia para procedimentos de emergência. Esse modelo é baseado em processos cognitivos do autor, do revisor e do leitor final.

O modelo de revisão proposta para os textos procedimentais foi retomado e melhorado recentemente considerando dois componentes: o ambiente do revisor e seus sistema de processamento de informações. O ambiente do revisor inclui as dimensões da produção retórica e pragmática (por exemplo, a área atingida pelo texto, público alvo, questões de revisão), bem como o texto já produzido ou em desenvolvimento.
O manual de operação deve cumprir integralmente o papel de instrutor.
Não há diálogo com um manual,
ele deve prever e fornecer as
informações e instruções necessárias
de forma clara, inequívoca.

Modelagem da revisão do texto

Propõe-se um modelo da revisão que detalhe os processos cognitivos, especificando sua operação: a definição de tarefa, a detecção e o diagnóstico dos problemas colocados pelo texto, seleção de estratégias de resolução. Diferentes conhecimentos envolvidos na revisão são também apresentados: metas e padrões que podem orientar a elaboração ou revisão de um texto ou seu plano, representação dos problemas detectados durante a leitura, o conhecimento de estratégias para resolver os problemas de diagnósticos, conhecimento de heurística para orientar a melhoria do texto. Nesse modelo, a revisão é considerada atividade deliberada e estratégica do revisor: é ele quem escolhe implementar interferências de acordo com os objetivos, o status do texto e o conhecimento disponível (por exemplo, no campo ou sobre a linguagem e a escrita de texto).
Então, quando um problema é detectado ou diagnosticado na leitura cuidadosa do texto, o revisor é susceptível de fazer uma escolha entre cinco estratégias clássicas de revisão, em função da importância do problema:
  1. ignorar o problema (por exemplo, se for considerado de menor importância ou, pelo contrário, muito complexo);
  2. adiar sua resolução (porque, por exemplo, a primeira leitura do texto, não era compatível com os fins especificados no momento da definição da tarefa);
  3. buscar informações adicionais (inclusive em seu próprio conhecimento ou no texto), a fim de melhor compreender e definir melhor o problema;
  4. modificar o texto preservando o produto original tanto quanto possível; 
  5. alterar o texto ou parte dele, preservando a ideia original.


No caso de edição ou reconfiguração de certos aspectos do texto, distinguem-se diferentes categorias de alterações pelos revisores:
  1. o tipo de interferência para chegar ao ponto desejado (adicionar, excluir, mover, substituir de palavras, grupos de palavras ou frases; mover parte do texto mais ou menos importante);
  2. a linguagem afetada por essas alterações (macro ou micro);
  3. a localização do segmento no texto (início, meio, fim); e
  4. a fase de escrita (participar desde o projeto ao final, ou só interferir na fase específica da revisão final).
O sistema de revisão inclui um nível de funcionamento cognitivo e um nível metacognitivo. O modelo enfatiza o papel da memória cognitiva e da memória trabalhando o longo prazo, e a importância, ao longo da revisão, das atividades de controle e tomada de decisão do editor. Assim, a memória de trabalho seria a sede do tratamento controlado.
Em geral, os modelos propostos asseguram o desenvolvimento de uma representação da tarefa, a detecção e diagnóstico dos problemas colocados pelo texto e a implementação de estratégias para resolver estes problemas. A memória a longo prazo permite o armazenamento do conhecimento e estratégias relacionadas à atividade de revisão. Além disso ela permite o armazenamento, mais ou menos longo, da representação do texto em análise.
Para os revisores, o conhecimento armazenado na memória a longo prazo é dividido em três categorias: conhecimento da área afetada pelo texto (conhecimento referencial), conhecimento sobre a língua e a elaboração de textos (regras e convenções linguísticas) e os conhecimentos necessários para a avaliação de uma escrita (por exemplo, conhecimentos relativos à qualidade de um gênero de texto).
A proposta implícita no modelo é a distinção entre estratégias de avaliação, controle e regulação. Estratégias de avaliação permitiriam a repetição de uma passagem difícil, previsões sobre o próximo texto e comparação de várias soluções alternativas para a revisão. Estratégias de controle e regulação resumiriam as informações textuais, para esclarecer e corrigir o texto. A seleção e implementação de estratégias estão associadas ao nível metacognitivo. Estratégias de agendamento de revisão e controle dos diferentes níveis linguísticos se definem por dois princípios subjacentes na implementação de estratégias de revisão e sua programação: a ordem do princípio e o princípio da ordem, focando diferentes níveis linguísticos de processamento de texto. O princípio da ordem de processamento atende a organização espacial do texto (princípio, meio e fim, linearidade do texto) e serve como suporte da leitura, atividades, verificação e correção de todos os problemas colocados pela ordem de surgimento (desde o início ao final do texto). Esse princípio é muito respeitado pelos autores jovens ou inexperientes. O segundo princípio corresponderia ao controle de todos os níveis de linguagem do texto. É baseado na observação de que um texto não é mera justaposição de frases que o revisor deve abordar independentemente, mas é estruturado em diferentes níveis linguísticos, tais como o nível macro (texto completo, organização semântica da informação) e o nível microestrutural (léxico, sintaxe). Esses níveis não operam independentemente, mas de forma integrada (por exemplo, alterações locais podem ter impacto sobre a arquitetura geral do texto). Portanto, cada ponto pode ser fonte de dificuldade e precisa ser examinado durante a revisão.
Combinando esses princípios, definem-se três estratégias para agendar a revisão, para manipular os níveis macro e microtextuais simultaneamente ou consecutivamente. Assim, a estratégia de tratamento simultâneo seria tratar de todos os níveis de linguagem em um texto em leitura sequencial única; a estratégia de tratamento da parte ao todo seria para verificar primeiro a primeira camada textual (no nível frasal), depois o nível profundo do texto (nível interfrasal).

As dificuldades da revisão egocêntrica

Numerosos estudos insistiram na complexidade da atividade de revisão e mostraram que existem diferenças interindividuais significativas na quantidade e natureza das alterações introduzidas no texto pelos revisores. Assim, revisores de diferentes idades e de especialização distinta melhoram o texto de maneiras diferentes. A principal diferença entre revisores novatos e especialistas diz respeito à quantidade de interferências realizadas: noviços interferem em menor quantidade que os especialistas mais experientes. Qualitativamente, essa diferença mostra o nível textual das operações de revisão: revisores experimentes avaliam tanto a superfície quanto o fundo do texto, enquanto as revisões feitas por iniciantes e jovens editores são restritos ao nível da superfície dos textos. Estes resultados poderiam ser atribuídos à falta de conhecimento dos jovens revisores na estrutura geral dos diferentes tipos de textos.
O processo de revisão de textos requer várias leituras.
Leia do início:
A revisão para manuais...
A diferença de desempenho entre revisores novatos e especialistas com alguns anos de exercício se expressa em termos de detecção (o primeiro detecta menos problemas do que o último), diagnóstico e implementação de procedimento eficaz para alteração. Outras dificuldades podem ocorrer durante a avaliação, muitos revisores são incapazes de se desviar de sua própria representação de texto. Colocado na posição de leitores, eles seriam capazes de perceber os problemas ainda presentes em seu próprio texto, porque, de alguma forma o defeito fica oculto por seu conhecimento prévio.
Os revisores devem ter habilidades como:
  • sabe construir uma representação do texto final, se ele está de acordo com o texto esperado (no caso do texto procedimental, esta representação deve se conformar com as características e as necessidades dos usuários),
  • saber detectar e diagnosticar adequadamente o texto escrito e se estes problemas, esses protocolos verbais ou comportamentais, podem fornecer uma ajuda eficaz na revisão de um texto procedimental.

Isso tudo pode ajudar a determinar as características do público-alvo, permite detectar e diagnosticar as dificuldades encontradas pelos usuários, como eles interagem com o documento e tentam aplicar as informações. Devido a seu âmbito pragmático, textos procedimentais nos fornecem pistas de percepção objetivas e parecem particularmente adequados para estudar o efeito de feedback sobre a revisão.
Adaptado de Ganier.