A base de conhecimento do revisor de textos

A compreensão e a reformulação de texto textos técnicos e científicos exigem competências linguísticas e extralinguísticas específicas do revisor.

Isso nos leva a refletir sobre a base do conhecimento e revisor de textos para explicar por que ele precisa desenvolver conhecimento ad hoc para revisar escritos cujo conteúdo não seja o da formação do linguista. Revisão é, basicamente, entender o texto original e melhorar sua comunicabilidade. Mas o revisor de textos raramente tem o conhecimento extralinguístico que o capacitam a compreender e revisar o texto técnico.
O olho do revisor está sempre aberto, inclusive para aprender.
O revisor de textos não sabe
sobre tudo, mas tem que
saber bem o que sabe.

A falta de especialização na formação de revisor de textos

Muito trabalho submetido revisor de textos se inclui no que podemos chamar de revisão técnica, como referência ao que, com maior propriedade, seria uma revisão linguística de textos técnicos.
Como o revisor de textos pode adquirir algum conhecimento técnico sobre o assunto dos textos em que atua?
A maioria dos revisores já chegou à conclusão de que, para a revisão técnica, falta treinamento completo em um campo especializado – necessário ao domínio do campo semântico restrito; o conhecimento do revisor de textos é sempre muito menor, sobre o assunto do texto, que o do autor especialista; o revisor de textos pode nunca alcançar aquele patamar. Indo mais longe, só os cientistas de cada área seriam capazes de revisar textos técnicos – mas a maioria deles não tem o conhecimento linguístico necessário, nem se dispõe à revisão, por dedicar-se a seu ofício de formação.
A primeira dificuldade para revisar texto técnico é o perfil do revisor de textos. Na maioria das vezes, o revisor de textos é formado em áreas (Letras, Jornalismo, Editoração – pós em Revisão) que lhe permitiram obter competência revisional, mas isso não lhe confere conhecimento em um domínio técnico específico, ou em cada domínio cujos textos lhe venham às mãos.
Ensinada nas universidades e escolas de revisão, a formação em revisão é principalmente para revisor de textos literários, havendo poucas horas para a aquisição de conhecimentos básicos em algum domínio técnico. No entanto, essas horas não é suficiente treinamento em nenhum campo técnico e o revisor aprendiz não pode se especializar em uma área técnica, porque não foi formado para nenhuma delas.

Falta de conhecimento e as especificidades do texto técnico

As dificuldades do revisor de textos não podem ser explicadas apenas por sua falta de treinamento em um campo técnico; o texto técnico também tem características de estilo e terminologia que complicam sua tarefa, mas o texto técnico atrai revisores, interessados no mercado que eles representam; esta é uma das principais motivações para estudos sobre revisão técnica.
Muitos estudos teóricos sobre revisão e tradução têm descrito a terminologia de disciplinas como a Medicina ou Direita, estudada através do vocabulário médico e legal. Isso é indício do interesse e da utilidade da transposição de conhecimento e da necessária interdisciplinaridade (pelo menos semanticamente) de que o revisor tem que se munir.
Os linguistas modernos estão interessados em especificidades do texto técnico, seja através de estudo sintático, estrutural ou lexical. A coesão de textos técnicos, tipografia, pontuação ou siglas e símbolos usados em textos técnicos também são estudados. Editorialmente, pode haver um estilo de escrita técnica, como segmentos repetidos, frases e denominações de uso frasais, requerendo revisão editorial. Há ainda o texto acadêmico; teses, dissertações e artigos têm forma canônica, requerendo do revisor domínio do jargão. Entretanto, as opiniões divergem sobre o que há de especial sobre a linguagem técnica no que diz respeito à linguística, no sentido amplo do termo que chamamos de “linguagem não especializada”.
Ao passo que o texto técnico original é, muitas vezes, mal escrito, obscuro, hermético, o revisor de textos deve produzir sempre um texto claro e legível, mas fiel ao original, sem o contaminar com seu estilo pessoal. O revisor de textos tem de compreender a ideia do autor; esse entendimento depende, em grande medida, não só o conteúdo semântico do discurso, mas a familiaridade do receptor com algumas de suas características linguísticas.
Para entender, o revisor de textos usa suas competências linguísticas e extralinguísticas, mas, quando o texto original não é claro, e o conhecimento linguístico do revisor de textos não ajuda a superar esse problema, o conhecimento técnico torna-se indispensável. Se o revisor de textos analisa o texto inconscientemente e não tem nenhuma dificuldade em o compreender, vai proceder mecanicamente no caso de dificuldades da análise sistemática do texto e vai usar suas habilidades de linguagem e entendimento extralinguístico para procurar resolver o problema, consultando fontes documentais ou em interação com o autor.
Revisores que trabalham em textos técnicos descobrem sempre fatores linguísticos e extralinguísticos que geram problemas de interpretação. Em muitos casos, as áreas técnicas caracterizam-se por uma proliferação descontrolada de terminologia, devido à introdução constante de vocábulos no jargão. Por exemplo, em informática, novos termos aparecem ao lado das palavras mais antigas para uma realidade quase semelhante e é muito difícil dizer se estas palavras são sinônimos verdadeiros. Em áreas onde o índice de desenvolvimento técnico e científico é importante (engenharias, medicina), a introdução de terminologias paralelas também é resultado do trabalho de pesquisadores que querem avançar suas descobertas e usam sua própria terminologia.
Alguns estudiosos de revisão consideram que a falta de terminologia singular e de corpus cria uma concorrência entre as formas completas e formas reduzidas dos termos e que o revisor de textos pode ter dificuldade em escolher o equivalente adequado, quando há repetições, ou introduzir erro na tentativa de eliminar ambiguidades.
Revisores também exploram os múltiplos significados de termos no texto técnico com base em numerosos estudos lexicográficos sobre a matéria em tela. Para revisores e lexicógrafos, um termo técnico pode ser derivado a partir da corrente de vocabulário e adquirir, em uma área em particular, sentido específico e diferente da normal.
Para os revisores, a polissemia e ambiguidade dos termos técnicos atuais são problemas de compreensão que não podem chegar ao leitor final. Os autores que escrevem sobre a revisão já bem descreveram os problemas que aqui colocados, mas poucos têm se perguntado o que fazer para contornar essa questão que engloba questões linguísticas e de mercado.

Aquisição de conhecimento

A revisão de termos e frases requer fraseologia e terminologia bem como respectiva pesquisa fraseológica. Os objetivos da pesquisa fraseológicas, por sua vez, visam compreender o significado das frases em contexto.
A falta de conhecimento do revisor e as peculiaridades do texto técnico complicam sua a tarefa. Para superar esses problemas, o revisor adquire conhecimento – e quase nada substitui completamente a necessária e contínua ampliação do campo semântico inconsciente do revisor; essa capacidade desempenha papel essencial na atividade de revisão, e implica que o revisor vai gastar muito do seu tempo nela, investindo em aprender.
Alguns autores têm se centrado na compreensão da mensagem técnica:
Pode o revisor, em algumas áreas técnicas, confiar em seu conhecimento pré-existente sem a aquisição de novo?
Resta ainda observar que o exercício contínuo da revisão atua revisão atua sobre o revisor, o que torna o revisor mais experiente menos suscetível às dificuldades inerentes aos múltiplos campos do conhecimento.
A aquisição de conhecimentos formais complementa o conhecimento ad hoc sobre o assunto e permite novas abordagens para a compreensão e reformulação do texto original. Especificamente, a contínua aquisição de conhecimentos apoia a recuperação de informação ad hoc e o uso de fontes; em sua atividade, o revisor utiliza ferramentas linguísticas externas para revisar o texto e para adquirir o conhecimento de como alcançar a necessária de compreensão do original e intervir nele adequadamente.
As restrições de tempo podem ter influência importante na aprendizagem, mas a restrição maior é o custo embutido no conhecimento, dificilmente aplicável no mercado, nesse sentido, a aquisição de conhecimento, em vez atender à necessidade linguística sobre cada assunto, passa a ser um diferencial de qualidade e de remuneração de quem exerce a revisão tendo trâmite além do campo de conhecimento linguístico.
Inspirado em Lagarde.