Princípios fundamentais da revisão de textos

O trabalho de revisão de textos, este feito por profissionais que se dedicam com exclusividade ao ofício, principalmente, mas também no caso daqueles que, por formação ou vocação pelas letras, se pauta por dois princípios que, a nosso ver, são fundamentais no ramo.

Quando se trata de revisão de dissertação ou revisão de tese, a necessidade e a aplicação desses princípios são ainda de maior importância. Estes princípios deve andar juntos, como o tripé em que a revisão de textos de sustenta.

A revisão de textos é atividade
 muito mais complexa que parece.
A alteridade do revisor de textos

O revisor não pode ser o autor, isso não faz sentido. O autor revê, reescreve, atualiza, aperfeiçoa seu texto. Mas a atividade de revisão do texto, tal como nós a entendemos e praticamos, é aquela – necessariamente – feita por alguém que tenha estado distante da redação do texto em qualquer de suas etapas. É necessário que o revisor do texto tenha distanciamento, nunca tenha lidado com aquele assunto, se possível, para que ele possa se colocar como o leitor, tentando compreender as ideias sem outra influência que aquelas das palavras. Há alguns profissionais de alfabetização ou de redação que tratam a atenção que o autor, o aprendiz aqui, deve ter para com sua produção como revisão. Do nosso ponto de vista, não é boa essa terminologia; aqui caberia correção, leitura cruzada (quando se trata de colegas interagindo) e algo assim, pois o revisor de textos profissional é o leitor qualificado pelo domínio da língua. Revisar um texto é ter a capacidade de interferi nele como quem vem de fora (alteridade!) e domina a mídia, o texto! Temos batido um pouco nessa tecla.

Mínima interferência do revisor no texto

Uma regra de ouro, pela qual temos pautado nosso trabalho de revisão, é a que prescreve nos obrigarmos a poder explicar qualquer interferência feita no texto do cliente. Em geral, são feitas muitas interferências, muitas mesmo. Desde as mínimas questões de digitação até os mais graves lapsos de concordância ou falhas de argumentação. Mas cada uma dessas interferências do revisor no texto deve poder ser explicada e sua necessidade demonstrada ao autor que terá última palavra sobre tudo. Nada pode ser mudado no texto do cliente com base em explicações vagas, tais como “assim fica melhor”, ou isso é “mais adequado”. É necessária uma justificativa técnica: “a negativa requer próclise”, “oração intercalada requer vírgula”, “redução de partículas indefinidas aumenta a exatidão e confiança transmitida pelo texto”.

Princípios funcionalistas da revisão de textos

O propósito aqui é mostrar que princípios funcionalistas são altamente produtivos para o trabalho de revisão de textos. Compreender o processo de articulação dos constituintes na organização textual e oracional é fundamental para a recuperação e a produção dos sentidos pretendidos. Por isso, o objetivo é mostrar que a desconsideração de regras internas de constituição linguísticas na elaboração de textos pode gerar efeitos de sentidos indesejáveis ou causar travas ao processo comunicativo-discursivo.
A organização linguística é orientada pelo macro-princípio de funcionalidade linguística, segundo o qual, os níveis sintático, semântico e pragmático estão integrados para satisfazer necessidades comunicativas e, por isso, para produzir efeitos de sentidos específicos. Um dos fenômenos que tornam esse princípio visível diz respeito à organização predicativa valencial, ou seja, à capacidade que o verbo tem de abrir casas a sua volta para serem preenchidas no processo de constituição oracional, fenômeno estudado sob o rótulo “Teoria de valência”. A concepção de linguagem que orienta o pensamento funcionalista é a de que a língua se constitui na interação. A linguagem então é vista como um processo dinâmico, social e interacionalmente dependente. Sistema e uso são interdependentes. Assim, alguns postulados podem ser distintos dessa, dentre os quais destacamos os seguintes:
  • O processo interativo atualiza movimentos de diferentes domínios de constituição linguística.
  • Os níveis sintático, semântico e pragmático estão integrados para satisfazer necessidades comunicativas e, por isso, as expressões linguísticas produzem efeitos de sentidos específicos, dependendo das intenções comunicativas dos usuários da língua.
  • Normas de organização sistêmica orientam a atualização linguística na fala e na escrita. O discurso é o espaço de harmonia entre as forças sociais e as forças linguísticas que estão na base da organização textual.
Num plano mais geral, conclui-se que princípios funcionalistas têm aplicabilidade múltipla, não se restringindo à descrição e à análise de línguas naturais. E ainda, que qualquer trabalho orientado por uma concepção sócio-cognitivo-interacionista da linguagem reconhece a diversidade na realização da linguagem, a funcionalidade das expressões linguísticas e o fato de que a língua está a serviço das intenções comunicativas dos usuários, e ainda, que é imprescindível considerar a organização do sistema linguístico a partir de princípios lógicos, cognitivos e culturais (Galvão).