Redundância ou pleonasmo vicioso

Anteontem, chegando em casa, eu logo senti o cheiro de algo parecido com comida típica de inverno. Curioso, deixei a minha mochila no quarto e fui direto para a cozinha.  Ao dar um beijo na minha mãe e dizer oi, eis que ela me diz: – Vá tomar banho para jantar, estou fazendo canja de galinha.
"Opinião pessoal" é pleonasmo redundante.
O autor deve sempre estar atento a
pleonasmos indesejáveis. O revisor
vai checar isso também.
Pois é. Provavelmente você nem percebeu algo “fora do lugar” na frase dita pela minha mãe. Por ser tão comumente usado, geralmente nem identificamos na expressão “canja de galinha” um dos vários pleonasmos viciosos existentes.
PLEONASMO (do grego, pleonasmós = superabundância).
Pleonasmo quer dizer sobejidão de palavras, o qual então o cometemos muito quando se dizem algumas que se podiam escusar, como Oulhou-me com os seus olhos, e Falou-me com a sua boca: porque ninguém pode oulhar ou falar senam per olhos e boca própria.
(João de Barros, Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, 1540, 36v)
Pleonasmo é uma figura de linguagem, conhecida também como figura sintática ou de construção. Caracteriza-se pelo uso de palavras que não complementam o sentido da expressão, apenas o reforça. Assim sendo, é considerado desnecessário e em geral aceito pela norma exclusivamente quando o termo utilizado tem a finalidade de dar ênfase, mais expressão à oração, o que acontece, por exemplo, no campo literário:

“Eu canto um canto matinal”. (Guilherme de Almeida)

No caso acima, sabemos que quem canta, canta necessariamente um canto, pois não há como se cantar outra coisa. Logo, o uso é permitido pela famosa e costumeira ferramenta literária, a licença poética.
Porém, se sairmos do universo literário, este uso torna-se uma repetição inútil, viciosa. É conhecido também como pleonasmo vicioso ou redundância, e danifica a qualidade do texto. Assim, ocorre redundância nos casos em que, numa frase, repete-se a ideia já usada em termo expresso anteriormente na mesma frase, trazendo ao leitor uma informação desnecessária, que nada acrescenta ao sentido e ao entendimento da mensagem.

Em trabalhos acadêmicos, os pleonasmos são quase sempre indesejáveis; teses e dissertações não admitem esse tipo de construção. Cabe sempre aos autores evitar, mas os revisores de textos vão colaborar eliminando os que escaparem.
Por ser um erro popularmente conhecido, muitas pessoas identificam vários deles em diálogos do dia a dia, pois são utilizados frequentemente sem que os falantes percebem que, na verdade, são inadequados. Separamos em uma lista, a seguir, algumas das mais conhecidas e outras talvez nem sempre vistas como incorretas.

Acabamento final (um acabamento inicial seria difícil).
Agora já (são sinônimos).
Almirante da Marinha (só existe essa patente na Marinha).
Amanhecer o dia (em que lugar do mundo a noite amanhece?).
Amigo pessoal.
Antecipar para antes.
Aproximadamente quase.
Biografia pregressa.
Blitz relâmpago.
Bonita caligrafia (caligrafia já significa boa letra).
Brigadeiro da Aeronáutica (Só na Aeronáutica há o cargo).
Cerca de quase.
Competir com.
Completamente exausto.
Conclusão final.
Concorrer com.
Consenso geral (consenso é a uniformidade de pensamentos, opiniões...).
Conviver junto (não há como conviver separado).
Cujo o/ cuja a.
Decapitar a cabeça.
Demente mental.
Descer para baixo / subir para cima / entrar para dentro/ sair para fora.
Deu-me a mim.
E nem.
Elo de ligação (elo só pode ser de ligação).
Encarar de frente (impossível encarar de trás).
Exportou para fora.
Fraternidade humana.
Ganhar grátis.
Goteira no teto.
Há muitos anos atrás.
Habitat natural (todo habitat é natural).
Hemorragia de sangue.
Hepatite do fígado.
História prévia.
Labaredas de fogo (labaredas são de fogo).
Lugar onde.
Manter o mesmo.
Mas apesar de.
Mas também.
Metades iguais.
Monopólio exclusivo.
Novidade inédita.
Países do mundo (de onde mais poderiam ser?).
Panorama geral.
Parâmetro de comparação/ referência.
Pequenos detalhes.
Perante a.
Pescar peixe.
Planos para o futuro.
Plebiscito popular.
Poça no chão.
Própria autobiografia (autobiografia só pode ser sua).
Protagonista principal.
Repetir de novo.
Sorriso nos lábios (impossível ser na testa).
Suposição hipotética.
Surpresa inesperada (se já esperava, não há surpresa alguma).
Todos são unânimes (com uma pessoa só não seria unanimidade).
Um único.
Viúva do falecido (ser viúva de alguém ainda vivo não é possível).
Vou ir.