1 de julho de 2014

Verdades e mitos sobre o texto científico

Quais foram as últimas instruções que você leu sobre o texto de sua tese ou dissertação? Será que tudo aquilo vai caber e fazer sentido em seu trabalho? O revisor vai se prender àqueles cânones?

Consta por aí uma série de mitos sobre a redação do texto científico, muito vêm dos professores de redação que, não sem razão, preparam seus alunos para o vestibular e o ENEM, formas bem “engessadas” de redação. Muito do que se apregoa vai ser mudado pelo revisor de textos com experiência no jargão acadêmico: é que uma tese de química ou medicina tem estruturas de texto distintas de outra de filosofia ou literatura, por exemplo.
Tese e dissertação têm que ser revisadas para ficarem perto da perfeição.
Não creia em tudo que se diz.
As recomendações gerais não são absolutas para esses dois grupos de textos, segundo o ramo de conhecimento e o assunto sobre que eles versam. Depois, não se pode confundir a dissertação no sentido que esse tipo de texto tem no ensino médio e concursos com a dissertação de mestrado ou outros textos dissertativos como artigos, relatórios, resenhas.

Vejam algumas imposições nem sempre universais que são feitas aos textos, esperando-se que eles sejam:

  • SEM JUÍZOS DE VALOR: Pressupondo que você não pode expor sua opinião a respeito do tema que está sendo discutido. Sua opinião não vale, sob esse ponto de vista, absolutamente NADA! Além disso ser impossível, não sei se seria desejável ou motivacionalmente interessante tentar escrever centenas de páginas sem se posicionar sobre o assunto. Os autores têm sim valores dos quais não precisam abdicar ao redigir: ética, por exemplo, é um juízo de valor que deve orientar a produção científica. O que não se recomenta é a distribuição de adjetivos e qualificações, de opinião e de preconceitos, dos “achismos” e de julgamentos que não encontrem base no material investigado ou no contexto da investigação.
  • REDIGIDOS EM ESTRUTURA FORMAL: Respeitar a estrutura “canônica” dos textos dissertativos: introdução, desenvolvimento e conclusão. O descumprimento desse esquema comprometeria o texto, bem como seu entendimento. Respeitar as margens, fazer do texto poema, ou qualquer outro gênero literário. Ora, tudo isso é válido, de modo geral, mas uma tese de literatura pode ter passagens completamente poéticas assim como o argumento filosófico pode ser estruturado em qualquer dos sentidos tradicionais da retórica.
  • DOTADOS DE COESÃO, COERÊNCIA E OBJETIVIDADE: Os textos dissertativos seriam conhecidos pela clareza com que são escritos. Para que isso ocorresse, seria necessário que dois elementos esivessem presentes na sua produção: a coesão e a coerência. Entretanto, coesão e coerência não são fatores de inteligibilidade, e a complexidade do raciocínio, principalmente em autores mais experientes e, em geral, já nas teses, pode surgir em textos extremamente complexos, alguns alinhavam conceitos que não são de domínio comum e estabelecem relações que nem toda coerência e coesão do mundo fará que sejam simples.
  • RICOS EM DADOS E POLIFONIAS: Quando se fala rico não quer dizer que você deva encher o texto de informações. Os dados, ou polifonias, servem para enriquecer o texto, demonstrando conhecimentos paralelos e seu uso em correlação com a ideia central do texto. Com isso, os argumentos estarão fundamentados, não em sua opinião, mas na visão de outrem, que pode ser uma pessoa física ou uma entidade de renome (autores). É o conhecido argumento de autoridade, a opinião de terceiros apresentada com maior destaque que o argumento factual ou alguma dedução própria. Não que os dados e opiniões de outrem sejam descartáveis, mas o texto visa partir de uma hipótese e alcançar uma ou mais teses em si, com a colaboração de autores que antecederam no tema.
  • PAUTADOS PELA OPINIÃO DE UM GRUPO PENSANTE: Essa regra seria importantíssima para quem redige, pois é muito comum texto se posicionar no momento da exposição dos argumentos ou dos motivos. Dissertar é argumentar, mas isso não lhe daria o direito de utilizar mecanismos emotivos para tentar persuadir o leitor. Não é bem assim, todo tipo de argumento é válido em tese, e tenho visto excelentes textos cuja carga emotiva conduz o leitor à catarse e identificação com as teses – o que se deve evitar é o melodrama acadêmico ou uma adesão partidária ou sectária, fugir das originalidades absolutas e das idiossincrasias pode ser um bom conselho.
Revisão e formatação de tese e dissertação. Dois serviços muito ligados.
Criam-se muitos mitos sobre
 a produção de textos.
  • DOTADOS DE OPERADORES ARGUMENTATIVOS: Desse recurso coesivo diz-se ser crucial para a construção de qualquer texto, já que a sua presença estabelece melhor compreensão dos argumentos que apresentados. Além disso, você estará criando elo entre todos os parágrafos e frases, não permitindo ao leitor margem de erros, no que se refere ao entendimento do texto. Mas o exagero de conectores será expurgado pelo revisor, assim como a repetição exaustiva de qualquer um deles. Em textos longos, é preciso muito comedimento no uso desses recursos, pois o seu excesso contribui para a exaustão do leitor.
  • BASEADO EM UNIFORMIDADE DE TESES: Isso nada mais é que aplainar o caminho pelo qual o texto será escrito. Você deverá delimitar o universo semântico do seu texto, para que as fugas temáticas não ocorram – não fugir do assunto. Tente sempre centralizar o foco temático para que a produção textual possa discorrer facilmente. Aqui temos uma recomendação ligada à coesão, uniformidade de significados e significâncias, nexo causal, legibilidade. São questões sobre as quais os revisores estão atentos, pois o leitor tende a falhas contra esse objetivo quando o texto é muito longo e sua redação fragmentada.
  • ENQUADRADO EM UM PERFIL TEMÁTICO: Geralmente, os textos das teses são baseados em temas sociais, filosóficos ou investigações objetivas e subjetivas. Por isso, tenha cuidado quando for escrever seu texto, no que tange a centralização temática. Procure fazer interpretação detalhada do tema que será trabalhado, para evitar erros argumentativos na sua produção escrita. Escreva o texto todo de uma vez, em conjunto, a metáfora que expressa essa ideia é a do esqueleto (do texto) sobre o qual vão se estruturando os órgãos, tecidos, músculos – à medida que se vão acrescentando as partes, os argumentos, os dados e as inferências sobre a estrutura inicial. O texto cresce todo de uma vez e não na ordem sequencial dos capítulos. Isso facilita muito e dá mais coesão.
  • REDIGIDO EM LINGUAGEM IMPESSOAL: Pretende-se você nunca, em hipótese alguma, se dirija ao leitor. Isto por que, os textos argumentativos não permitem que exista uma interação direta entre autor e interlocutor. A ideia desses textos é apresentar argumentos para persuadir o leitor sobre um determinado ponto de vista, mas isso não se aplica em muitos textos das ciências humanas, embora seja – sim uma boa orientação para as teses de ciências exatas ou biomédicas. As construções em plural majestático (segundo constatamos...) são artificiais e algo antiquadas, as estruturas em voz passiva (segundo se observa...) não são muito usuais e podem conduzir a erro, uma solução pode ser o uso de formas nominais dos verbos (ficando provado...) que são seguras e discretas. Mas há bom gosto para todo uso e eventual necessidade de qualquer tipo de estrutura.
  • INTITULADO À MODA ACADÊMICA: A criação do título da tese é um grande problema para muita gente. A dica que eu dou é fazer o título no primeiro momento e ir melhorando à medida que se redige o trabalho. São lamentáveis os títulos de três linhas, mas nunca vi um título de tese com uma só palavra. Pense em algo que identifique o texto, mas não precisa descrevê-lo: para isso existem os resumos. Pense que o título da tese, dissertação ou monografia vai aparecer em alguns formulários: quando são muito longos, nem cabem nos espaços que lhes são destinados. O revisor de textos pode ajudar na finalização do título. Não é necessário haver e subtítulo; não precisa usar dois pontos, travessão e chavões como “um estudo de caso” ou “proposta metodológica” – mas pode.