12 de agosto de 2013

Revisão de texto, que tipo de revisão é essa?

Revisão de texto, conferência, paráfrase, copidesque, retextualização, reescritura...

A revisão de texto não deve ser confundida com conferência, porque esta é uma atividade “esvaziada de intelecto”, de liberdade. Revisão de texto é um outro olhar sobre o texto; a conferência compara duas versões de um mesmo documento. Revisar é apor vista a alguma coisa; é ler o texto a fim de consertar-lhe possíveis “erros”, sejam eles relativos à estrutura (redação, digitação, tipografia etc.) ou ainda relativos ao aspecto linguístico de adequação do modo como o conteúdo é apresentado/exposto.
Os autores de teses e dissertações precisam compreender o que acontece na hora da revisão do texto.
Há muito mais entre revisão de texto e
retextualização que se pode supor.
Quanto menos habilitado o revisor for, mais seu trabalho se aproximará da conferência, o que significa nenhuma interferência (saneamento local ou global) no texto. A conferência pode ser uma das fases da revisão de texto quando do cotejamento entre as emendas pedidas na versão anterior com as da versão posterior. Isso não implica dizer que a conferência não tenha sua importância: é essencial para comprovar a veracidade de documentos (atividades de cartórios, por exemplo) e não permitir que textos que já tenham sido distribuídos e consumidos na sociedade (como uma lei) mudem seus aspectos originais.
A paráfrase é inerente à atividade de revisão de texto, mas esta não se reduz àquela, porque é uma atividade mais complexa. O trabalho de revisão não se restringe à reformulação/adequação linguística por meio de novas palavras ou novas frases. Essa complexidade emergirá no desenvolvimento desta pesquisa. Por enquanto, fiquemos na importância da paráfrase na revisão de texto. O revisor lida com a paráfrase quando tem de aplicar o processo de transformação da linguagem de um texto em outro para torná-lo mais inteligível, sem mudar a informação do texto-base, representamos conteúdos anteriores em construções sintáticas diferentes, visando a um ajustamento, a uma precisão maior de sentido.
O revisor deve estar atento aos efeitos discursivo e de sentido no texto sob sua responsabilidade. Deve ater-se à continuidade semântica entre os dados do texto. Por mais óbvia que seja a continuidade semântica ou ligação, sua presença é necessária para a manutenção da relação. O revisor deve estar atento ao vetor pelo qual se marca a heterogeneidade no discurso, seja ela mostrada ou constitutiva. Mas as relações formais e semânticas que se estabelecem em uma paráfrase não são tão simples.
À impossibilidade de se estabelecer uma sinonímia absoluta, uma total relação de identidade semântica, seja em termos léxicos ou frásticos, o revisor deve analisar a paráfrase como aproximação de sentido, e esta dependerá do contexto de ocorrência.
Entre o texto-base (A) e o parafraseado (AB), o revisor deve estabelecer o grau de equivalência de significados entre os dois, levando em consideração sempre o significado-base do texto A. Se assim não for, teremos um texto inédito. A paráfrase é uma atividade essencial para a revisão de texto. Nesse caso, diferentemente da conferência, quanto maiores forem o preparo do revisor e o entendimento do texto maior será a possibilidade de intervenção responsável.
O que é copidesque? Muitos a chamam de revisão inicial. Copidescar é colocar em forma jornalística as informações objetivas dos repórteres. Para isso, baseia-se nas normas de estilo do jornal, adequando a linguagem aos padrões gramaticais e de comunicação, para possibilitar a publicação das informações em forma de reportagens e noticiário. Daí ter-se a percepção de que a figura do copidesque existe apenas em contextos editoriais e jornalísticos. Mas essa percepção é equivocada segundo o ponto de vista de alguns autores da área de revisão e, na prática, as diferenças esvaem-se; as transformações realizadas no texto pelo copidesque podem ser efetivadas por revisores – todo revisor é um copidesque e vice-versa, pois a linha que separa as duas atividades é tênue.
Pensar-se a revisão de texto como algo menos complexo que a copidescagem pode ser derivado de uma visão reducionista de que a revisão tem apenas como objeto o cotejamento (conferência, checagem de “mancha gráfica”) do original com a prova ou a preocupação apenas com questões gramaticais, modalidade padrão, de escrita; há confusão entre as funções do editor, do revisor e do copidesque nos manuais de revisão.
Compreendo que a Revisão é também uma atividade complexa, porque, além de reescrever ou de retextualizar é uma reflexão sobre o texto. Não importa o grau de intervenção que se proceda no texto-base, será sempre uma retextualização. Uma única vírgula pode não apenas pontuar logicamente um texto, mas também ter o poder de mudar o sentido, a orientação discursiva do texto derivado.
É oportuno observar que a passagem de um gênero para outro envolve operações cognitivas, sociais, discursivas e ideológicas mais complexas que uma simples operação de “reescritura” e também foge completamente da noção da conferência, da paráfrase e da retextualização. Seria mais apropriado denominar esse processo de resitualização, o que implicaria uma preocupação com a mudança na configuração do gênero em seu aspecto formal (linguístico e visual), discursivo (função social) e na organização prototípica do gênero (estrutura potencial).
A reescritura é um conceito tão distendido, tão vago, em que cabem tantos procedimentos diversos, que quase poderia ser posto de lado, diluído na sua própria amplitude. Assim, a expressão retextualização poderia igualmente ser nominada de refacção ou reescrita.
A reescritura coloca-se no interior de um mesmo gênero em que as mudanças dão-se apenas em aspectos formais de escrita sem alterar a estrutura genérica e sua função social. Quando isso ocorre, ou seja, quando há alteração na estrutura e na função do gênero, o processo seria uma resitualização.
A reescritura é também voluntariamente hipertextual. Entretanto, embora se constitua, da mesma maneira que a paródia e o pastiche, a partir de um texto-modelo, o seu propósito não seria agir sobre este texto. Ainda segundo ele, a ré escritura, entretanto, constitui-se como um texto autônomo e poderia prescindir da referência ao hipotexto.
Parafrasear, revisar (copidescar), retextualizar (reescrever) são formas de agir sobre o texto, em outro grau. Quando se realiza qualquer dessas operações sobre o texto, o propósito do revisor não é alterar a estrutura do gênero e sua função social. A ação incide sobre as formas linguísticas e aspectos como formatação (layout, diagramação, formato – A4, A5 etc.), com a intenção de contribuir para melhorar a compreensão do texto. Isto é, as mudanças provocadas pela ação do revisor ocorrem no sentido de fazer com que o texto adapte-se ao gênero de modo a atingir sua configuração adequada, sem alterar a sua função social.
Partindo-se do princípio de que cada movimento realizado no texto constitui uma mudança, para se ter uma reescritura, não importa o grau de mudança operada, é sempre um novo acontecimento, o que não significa, necessariamente, a transposição a outro gênero.
Em outra perspectiva, o ato de revisar, que se realiza como resitualização de um gênero, tem repercussão na função social e/ou na estrutura do gênero. Revisar um texto, a partir da resitualização do gênero é adequá-lo em termos de sua natureza e função social. Isso torna a atividade de revisão de texto muito mais complexa.
Todos esses processos de mudança no texto poderiam ser resumidos à reescritura, no nível do texto, ou resitualização, no nível do gênero e da prática social. Outro ponto importante é que os processos de reescrita apontam para a noção de que todo texto pode ser modificado, e assim nunca será um produto acabado. É um diálogo que permite a construção de subjetividades de suas capacidades de linguagem, de construir dinamicamente sentidos.
No processo de revisão de texto, não se pode esquecer de que os gêneros textuais são práticas sociais que podem incorporar práticas de outro(s) contexto(s), podendo ser reescritos, recontextualizados e consumidos em escalas mais amplas que o contexto local ou nacional. A reescritura seria, neste caso, um processo mais profundo em que se operariam mudanças não apenas na configuração interna do gênero textual – adaptações nos aspectos linguísticos, na estrutura potencial e na função social imediata do gênero –, mas, também, levando-se em consideração a assimilação de práticas sociais globais e a consequente incorporação intencional de outros textos a uma produção discursiva particular para circular em escala global. Por isso os termos globalização, reconfiguração e recontextualização apresentam-se como novos desafios para o revisor.
Fragmento retextualizado de Rocha, H.
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