Consta por aí uma série de mitos sobre a redação do texto científico, muito vêm dos professores de redação que, não sem razão, preparam seus alunos para o vestibular e o ENEM, formas bem “engessadas” de redação. Muito do que se apregoa vai ser mudado pelo revisor de textos com experiência no jargão acadêmico: é que uma tese de química ou medicina tem estruturas de texto distintas de outra de filosofia ou literatura, por exemplo. As recomendações gerais não são absolutas para esses dois grupos de textos, segundo o ramo de conhecimento e o assunto sobre que eles versam. Depois, não se pode confundir a dissertação no sentido que esse tipo de texto tem no ensino médio e concursos com a dissertação de mestrado ou outros textos dissertativos como artigos, relatórios, resenhas.
| Nem tudo que já se disse sobre a redação das teses e dissertações pode ser considerado como verdade absoluta. |
Vejam algumas imposições nem sempre universais que são feitas aos textos, esperando-se que eles sejam:
- SEM JUÍZOS DE VALOR: Pressupondo que você não pode expor sua opinião a respeito do tema que está sendo discutido. Sua opinião não vale, sob esse ponto de vista, absolutamente NADA! Além disso ser impossível, não sei se seria desejável ou motivacionalmente interessante tentar escrever centenas de páginas sem se posicionar sobre o assunto. Os autores têm sim valores dos quais não precisam abdicar ao redigir: ética, por exemplo, é um juízo de valor que deve orientar a produção científica. O que não se recomenta é a distribuição de adjetivos e qualificações, de opinião e de preconceitos, dos “achismos” e de julgamentos que não encontrem base no material investigado ou no contexto da investigação.
- REDIGIDOS EM ESTRUTURA FORMAL: Respeitar a estrutura “canônica” dos textos dissertativos: introdução, desenvolvimento e conclusão. O descumprimento desse esquema comprometeria o texto, bem como seu entendimento. Respeitar as margens, fazer do texto poema, ou qualquer outro gênero literário. Ora, tudo isso é válido, de modo geral, mas uma tese de literatura pode ter passagens completamente poéticas assim como o argumento filosófico pode ser estruturado em qualquer dos sentidos tradicionais da retórica.
- DOTADOS DE COESÃO, COERÊNCIA E OBJETIVIDADE: Os textos dissertativos seriam conhecidos pela clareza com que são escritos. Para que isso ocorresse, seria necessário que dois elementos esivessem presentes na sua produção: a coesão e a coerência. Entretanto, coesão e coerência não são fatores de inteligibilidade, e a complexidade do raciocínio, principalmente em autores mais experientes e, em geral, já nas teses, pode surgir em textos extremamente complexos, alguns alinhavam conceitos que não são de domínio comum e estabelecem relações que nem toda coerência e coesão do mundo fará que sejam simples.
- RICOS EM DADOS E POLIFONIAS: Quando se fala rico não quer dizer que você deva encher o texto de informações. Os dados, ou polifonias, servem para enriquecer o texto, demonstrando conhecimentos paralelos e seu uso em correlação com a ideia central do texto. Com isso, os argumentos estarão fundamentados, não em sua opinião, mas na visão de outrem, que pode ser uma pessoa física ou uma entidade de renome (autores). É o conhecido argumento de autoridade, a opinião de terceiros apresentada com maior destaque que o argumento factual ou alguma dedução própria. Não que os dados e opiniões de outrem sejam descartáveis, mas o texto visa partir de uma hipótese e alcançar uma ou mais teses em si, com a colaboração de autores que antecederam no tema.
- PAUTADOS PELA OPINIÃO DE UM GRUPO PENSANTE: Essa regra seria importantíssima para quem redige, pois é muito comum texto se posicionar no momento da exposição dos argumentos ou dos motivos. Dissertar é argumentar, mas isso não lhe daria o direito de utilizar mecanismos emotivos para tentar persuadir o leitor. Não é bem assim, todo tipo de argumento é válido em tese, e tenho visto excelentes textos cuja carga emotiva conduz o leitor à catarse e identificação com as teses – o que se deve evitar é o melodrama acadêmico ou uma adesão partidária ou sectária, fugir das originalidades absolutas e das idiossincrasias pode ser um bom conselho.