Revisão de textos: fazeres, práticas, ações, dilemas, formação

O ofício da revisão de textos tem fazeres decorrentes de saberes, práticas fundadas na experiência, ações que visam resultados, dilemas como em toda profissão e é um ramo de serviço a que se chega por diferentes formações.

No mundo contemporâneo, várias etapas da revisão de textos foram simplificadas em virtude das tecnologias de digitação ou digitalização que permitem à maioria dos autores entregar seu trabalho já digitado por eles mesmos, não havendo necessidade de serem compostas novamente. Além disso, o profissional que revisa o texto diretamente na tela do computador pode contar com recursos de correção gramatical do Word, ao contrário dos textos impressos no papel, em que as correções são geralmente colocadas às margens do texto. No que se refere ao perfil do profissional que se responsabiliza pela revisão, podemos dizer que entrou em cena nos últimos anos o profissional com formação superior para assumir tanto a revisão de originais quanto a coordenação dessa atividade.
Todos os livros, teses, artigos, devem contar com os serviços do revisor profissional.
Revisão de textos não significa fazer
escolhas pelo autor, mas oferecer a ele
suporte para tomar decisões. Infelizmente,
nem sempre é possível que seja assim.
Com a difusão do conhecimento das propostas bakhtinianas, levando em consideração os aspectos discursivos, as relações de textualidade, além dos aspectos estruturais e notacionais, pode-se reforçar a tese do trabalho de revisão como atividade que deve levar em conta os sujeitos envolvidos no processo interacional de produzir e revisar o texto, com suas peculiaridades e singularidades. Nessa perspectiva dialógica, encontramos consonância a nossas práticas no processo de revisão de textos: fazer a leitura que leve em conta não apenas os aspectos normativos, postura mais comum entre revisores que trabalham em uma perspectiva mais tradicional. Com tal concepção teórico-metodológica, pudemos adquirir mais subsídios para orientar a produção e a revisão de textos, bem como orientar eventuais estagiários em sua iniciação no ofício da revisão. Ao procuramos entrelaçar prática e teoria, agora com muito mais leituras orientadas e troca de experiências com outros revisores, autores, professores e alunos, constatamos como é importante essa interação.
É necessária a compreensão, por parte do revisor, de que o material com que ele trabalha é de gêneros os mais diversos. Cada texto é constituído de temas, construções composicionais e estilos que, embora geralmente submetidos às coerções linguísticas e sociais que permeiam todo ato de dizer, também podem ser flexíveis, dependendo de onde e para quem o autor está escrevendo, o que implica a consideração das condições de produção, circulação e recepção. Por conseguinte, para o trabalho concreto de revisão, não basta que os profissionais dominem a língua como sistema funcional ou nomotético e corrigirem os lapsos gramaticais no texto; é necessário também que eles adotem atitude compreensiva com relação aos valores que orientam as escolhas das formas dadas ao conteúdo textual (Oliveira).

Dilemas do revisor de textos

Nós defendemos a ideia de que o revisor de textos deva ser o profissional que entenda a variação linguística como um fato incontornável da língua, havendo sempre alternativas pessoais e escolhas autorais em qualquer texto. Que o revisor seja capaz de analisar os usos dos autores observando sua adequação aos registros linguísticos e às diversas instâncias discursivas. O revisor é o profissional cuja atividade depende de formação que ultrapassa o conhecimento de algumas prescrições do padrão culto, incluindo um saber linguístico amplo e consistente. Desse modo, diferentemente do que acontece com frequência, o revisor não pode se sujeitar às armadilhas da hipercorreção e do gosto pessoal, desprovido do suporte do saber teórico e da experiência com o texto.
Na prática da revisão, a ação do revisor de textos consiste, frequentemente, em deliberar sobre o uso de duas formas linguísticas concorrentes: uma reconhecidamente pertencente à norma culta e outra mais recente; a questão da hipercorreção, muitas vezes, constitui um dilema sobre o qual o revisor deve arbitrar. Apontam-se os exemplos de três pares de formas concorrentes: “dentre”/“entre”; “o mesmo” (ou formas flexionadas)/“esse” ou “este”; “tratar-se de”/“ser”. O revisor de textos deve enfrentar a questão entre duas formas usuais, uma reconhecidamente pertencente à norma culta e outra cuja incorporação, no âmbito do português escrito formal é duvidosa. Que critérios o revisor deve utilizar para decidir entre uma ocorrência e outra?
O problema real para o revisor não é admitir a hipercorreção (ou evitá-la), mas saber se uma ocorrência pode ser entendida como elemento já incorporado em determinado registro, idioleto ou gênero. Não se trata de julgar os fatos da variação, que se manifestam com frequência e são inevitáveis, mas de saber que parâmetros aplicar para diferenciar usos que já são característicos de determinado domínio linguístico daqueles que não o são. A questão fica mais relevante quando se está atuando no âmbito da norma culta, visto que é necessário, então, assumir a atitude mais conservadora – a norma, tomada como padrão, deve ser capaz, na medida do possível, de ultrapassar fronteiras espaciais e temporais. Garantir que um texto esteja em consonância com a norma culta é uma das tarefas do revisor de textos, o que motiva frequentemente a contratação do seu trabalho.
Usar uma língua em uma situação particular, em contexto sociocultural específico, significa fazer escolhas: entre, por exemplo, estruturas sintáticas, vocábulos, entre a oração na voz passiva e a oração na voz ativa, entre uma expressão da norma culta e uma da linguagem afetiva, entre a primeira pessoa e a terceira pessoa do discurso. Trata-se de operar com uma série ampla de variáveis características da atividade comunicacional, como o sujeito com quem se interage, o objetivo que se quer alcançar, o lugar social que se está ocupando. São escolhas que dizem respeito a qualquer usuário da língua, seja na produção escrita ou oral; todavia, cabe a quem trabalha com o texto profissionalmente dominar um repertório mais amplo de opções linguísticas e saber manejá-las adequada e conscientemente em um também mais amplo conjunto de situações de produção e recepção textual. O revisor de textos é o profissional que trabalha com as escolhas alheias, respaldando-as ou sugerindo alternativas. Assim, o dilema não é do revisor: cabe a ele oferecer elementos para que o autor se decida - isso, no mundo ideal (Mourão).

A formação do revisor de textos

Muitas pessoas nos perguntam quem é o revisor de textos, que formação ele tem. Normalmente, as pessoas têm a noção de revisor de textos ligada ao ofício de professor de português, já que quase todos tivemos nesses mestres os primeiros críticos e orientadores de nossa redação. Muitos revisores foram ou são mesmo professores e tiveram a formação tradicional de Letras, o que é apenas um dos muitos caminhos para se chegar ao ofício de revisor. Mais antigamente, quando havia revisores nas redações de jornais e tipografias, o ofício era exercido por estudantes de Direito, de Filosofia, e de diversos outros ramos que, bem treinados nos estudos clássicos, tinham a habilidade para reduzir os erros tipográficos que eram comuns àquelas atividades, com as limitações técnicas daquela época. Hoje há revisores advindos das mais diversas formações; ainda predominam os bacharéis e licenciados em Letras, mas agora com muitos jornalistas e publicitários concorrendo com eles, além de grande número de pessoas de outras áreas que aportam no ofício.
Não há muitas graduações focadas na atividade de revisão de textos, mas as pós-graduações são muitas em diversas regiões do país, principalmente os cursos lato-senso que complementam e direcionam a formação de diferentes graduações para a atividade da revisão. Boa parte dos revisores mais experientes, inclusive os que lecionam naqueles cursos, são profissionais que acumularam a erudição necessária e a conjugaram com o conhecimento linguístico imprescindível, aprimorando gramática, sintaxe, semântica, bem como a competência retórica, por esforço próprio.
A profissão de revisor de textos está se especializando muito atualmente. Não há mais necessidade de revisores tipográficos, já que nem existem mais tipografias. Não há que se falar em revisores textuais, como não há revisores metafóricos. Não se pensa mais em revisão ortográfica, ou algo nesse sentido, pois os erros ortográficos são virtualmente suprimidos por qualquer programa de edição de textos. Revisão gramatical é quase um aspecto terciário na revisão de textos moderna. Hoje pensamos o texto como suporte da informação entre autor e leitor, como uma mídia ou um elemento da multimídia portador de mensagem genérica ou específica destinada a um público amplo ou restrito, e a função do revisor é aperfeiçoar esse instrumento. O revisor de textos é o profissional que aperfeiçoa, melhora, enriquece o texto em sua função comunicacional.
Assim, há revisores especializados em tão diversos tipos de textos quantos eles existem. Só para citar alguns, pensem em textos jornalísticos, científicos ou literários. Então há revisores jornalistas, cientistas e literatos – e assim por diante. Há muitos tipos de revisores e suas formações de origem são igualmente diversificadas, havendo em comum muito livro, muita escrita e alguma erudição acumulada.

O problema do custo da revisão de textos

Revisão de textos é um serviço de custo elevado. Quando um autor conclui um trabalho de monta, uma tese, por exemplo, e se vê na necessidade absoluta de contratar um revisor para as centenas de páginas a que ele dedicou alguns anos de sua vida; normalmente, o autor não se preparou para o custo da revisão. Aí parece caro.
Certamente, um revisor profissional, habilitado e qualificado cobrará milhares de reais para uma revisão desse tipo. Esse revisor, lembrem-se, é um profissional sênior, tem curso superior e vários anos de prática com textos científicos, normalmente é pós-graduado. Trata-se de profissional que, normalmente, dedica-se com exclusividade ao seu ramo de trabalho e precisa ter disponibilidade imediata para a tarefa a que é solicitado.
Não se improvisa um revisor, seu trabalho não pode ser substituído pelo favor de algum parente ou conhecido que tenha domínio pleno da língua, um professor de português, por exemplo. O domínio da gramática e os outros atributos linguísticos necessários são bem disseminados, mas a habilidade específica e o pleno controle do registro formal acadêmico nem sempre são encontrados nas pessoas. Não se trata apenas de o texto estar certo, mas de melhorá-lo e adequá-lo plenamente ao fim a que se destina.
Portanto, antes de pensar em quanto custa a revisão de textos, é o caso de pensar no custo de formação de um revisor, no custo da disponibilidade dele para quando for necessário, no custo dos anos de prática e de exercício de tarefas assemelhadas. O custo da revisão, da boa revisão que um trabalho de qualidade merece é elevado, reconheço, mas não existe milagre no mercado, para comprar ou contratar o que é bom ou o melhor existem ônus necessários.
Quer saber o preço? Solicite o orçamento, mas veja que o custo não é o de uma correção, revisão é bem diferente e mais que isso.