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| Ronald Polito: A borrarcha. Borracha, grafite, 3,7 x 2,8 x 0,8 cm - 2011 |
- O revisor é um caçador de distrações. Uma de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar despercebidos.
- O revisor revisa com amor.
- O revisor sai de manhã, caneta em punho, em busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas.
- O revisor revisa com dor.
- O revisor chega em casa, à noite, com o coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.
- O revisor revisa com ardor.
- O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato moem o vento de palavras que o vento não leva. Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes, noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das ciladas armadas sabe Deus por quem.
- O revisor entrega o seu trabalho bem suado e abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: quem mexeu no meu texto?! O mérito da frase perfeita é do autor. O crime do erro cometido será do revisor.
- O revisor, porém, não se considera um injustiçado.
- O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia.
- O verdadeiro revisor sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de todas.
- Oços do ofíssio.
Gabriel Perissé, adaptado
