Ana Beatriz Miranda Fernandes
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| Encontre um revisor de textos de confiança e tenha com ele uma longa relação de trabalho. |
- Em primeiro lugar, ame o seu idioma. Não o considere inferior a nenhum outro. Conheça-o profundamente, avalie suas riquezas e sutilezas, para poder ter sempre à mão a palavra certa para o contexto certo, pois, mais uma vez, a característica principal do mercado de revisão atual é a falta de tempo. Leia bastante em português, para ficar “prático” e fluente. Ler o quê? De tudo: desde bulas de remédio até a coluna de economia do jornal. Se você pretende ser um profissional versátil, nunca saberá que tipo de texto cairá nas suas mãos. E se for um texto sobre a política econômica da Inglaterra ou a situação atual da guerra no país X? Como você poderá opinar quanto ao melhor termo, se os dicionários trazem diversas opções e só você sabe o contexto do trabalho? No caso da revisão de textos traduzidos, conheço alguns tradutores/revisores que, muito equivocadamente, acham que dominar mais o idioma de origem do que o de destino é suficiente.
- Não queira reescrever o texto. Correções desnecessárias são uma perda de tempo, além de constrangerem o autor, criando arranhões num relacionamento que, conforme foi dito anteriormente, tem que se basear na confiança mútua. Ou seja, o revisor tem que confiar que o autor/tradutor consultou todas as fontes necessárias e fez o melhor possível com o tempo designado, da mesma forma que o autor/tradutor tem que confiar que o revisor não vai estragar o seu trabalho.
- Dentro do limite de tempo fornecido para o trabalho, é proibido ter preguiça! Não confie na sua memória ou na sua extrema sabedoria – consulte todas as fontes adequadas para o trabalho. Como exemplo, podemos repetir a importância que a internet adquiriu como fonte de consulta. É excelente, você terá acesso a informações atuais de forma dinâmica e poderá se surpreender com os resultados, quando nenhuma outra fonte resolver o seu problema. Lembre-se: excesso de confiança em si próprio sempre é um risco, e a sua reputação profissional é que está em jogo. Seja humilde.
- Dependendo do tipo de trabalho, conforme já foi dito antes, faça uma revisão parágrafo a parágrafo, especialmente se o seu trabalho envolve o cotejo com uma língua de origem diferente do português. Alguns tradutores hoje me agradecem por esta dica que parece ser muito simples, mas ajuda demais a não cometer erros desnecessários e sobrecarregar o revisor. Após a revisão minuciosa, se possível, leia todo o texto, para aparar qualquer aresta que tenha sobrado.
- Discuta com seu cliente a abrangência da revisão. Este é um aspecto muito importante. É quase impossível encontrar um revisor que, além de dominar os idiomas de origem (se for o caso) e de destino, também seja expert em todas as matérias técnicas. Se o texto for excessivamente técnico e em decorrência disso o assunto não estiver totalmente ao seu alcance, talvez valha a pena propor ao cliente que, além de uma revisão lingüística, seja feita também uma revisão técnica por um profissional da área.
- “Last, but not least” – não perca a criatividade, o interesse pelo texto. Em outras palavras, não se automatize! Todo texto tem vida e pode ser muito interessante para o leitor, mesmo o mais técnico. Por isso, mergulhe no seu texto, não meça esforços para torná-lo mais interessante, original, e – talvez o mais importante – mais legível, sob todos os aspectos.
Outras dicas poderiam ser dadas, mas elas dependeriam muito do material de trabalho do revisor. Passemos portanto a outros aspectos dessa carreira que acho muito interessantes.
Com os limites de tempo impostos ao trabalho de revisão, sobre o que já falamos exaustivamente, vimos que o tradutor cada vez mais incorpora o trabalho de revisor. Mas será que as duas habilidades convivem com a mesma excelência no mesmo profissional? Dito de outra forma: será que existe um “perfil de tradutor” e um “perfil de revisor”? Outra questão curiosa é: será que o revisor de textos bilíngues, mesmo que não tenha tido uma formação específica em tradução, de tanto revisar textos traduzidos pode vir a ser um bom tradutor? Segundo minha modesta experiência, a resposta a esta pergunta é “sim”. Diversos profissionais passaram por nossa empresa começando como revisores, e hoje são bons tradutores – por sinal, disputadíssimos. Por outro lado, também tenho visto revisores que teriam toda a competência para se tornar tradutores e, estranhamente, não o desejam. Faltaria a estes profissionais apenas uma pitada de ousadia, ou devemos considerá-los simplesmente profissionais extremamente conscienciosos de suas limitações (se é que elas existem...)?
Outro aspecto instigante é a questão da coautoria. Os tradutores conhecem o tema da regulamentação da profissão e o quanto ainda é difícil para o mercado enxergar o tradutor como um coautor do texto originariamente escrito em idioma estrangeiro. E o revisor, será que ele merece também ser considerado coautor do texto? Que implicações financeiras para o mercado isso teria?
Bem, muitas outras questões poderiam ser levantadas, mas, por falar em limitações, vamos justificar o término deste artigo com mais duas: falta de espaço e falta de conhecimento para falar mais sobre esta maravilhosa profissão. Fica, portanto, o convite para os comentários dos colegas. Além disso, ficam também minhas sinceras homenagens e o incentivo para que os revisores continuem fazendo seu trabalho silencioso, anônimo, meticuloso – e, acima de tudo, simplesmente indispensável.
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