3 de agosto de 2010

O revisor e o texto

Revisar texto é no computador.
A atividade de revisão de textos surge com as gramáticas, “fortemente vinculadas à prescrição de bem falar” (BRITTO, ''A sombra do caos'', 1997) e prescritivas em sua origem.
Nascendo a partir da norma, e só existindo por causa dela, a revisão de textos restringiu-se por muito tempo à correção ortográfica e gramatical e foi incorporada como parte intrínseca do processo editorial. É nesse espaço social que o profissional que realiza o trabalho de revisão encontra boa parte do mercado de trabalho. A produção de textos acadêmicos e científicos também compõe uma porcentagem expressiva do trabalho disponível ao revisor de textos, mas, ao contrário do que ocorre na relação estabelecida com o mercado editorial formal, a revisão de textos de áreas especializadas tende a eximir-se de qualquer responsabilidade de ordem trabalhista, o que reflete a falta de respaldo social da atividade.

Muito se tem debatido sobre teorias literárias, teorias da tradução e teorias linguísticas com ênfase na autoria e no texto final, tomando o texto já pronto (ou seja, publicado) como ponto de partida ou, no caso dos estudos de tradução, dois textos cujas características são comparadas à luz de teorias da tradução. O que poucas vezes se leva em conta é a existência de políticas editorias que interferem no produto final. Um exemplo disso é a mudança de títulos, como a publicação em português de Blind Man with a Pistol, de Chester Himes, pela editora L&PM (2007), sob o título O Harlem é Escuro (tradução de Celina Falk Cavalcante). Tive a oportunidade de realizar a revisão da tradução, e o título sugerido pela tradutora era outro. Por decisão da editora o título foi alterado. Sem ter conhecimento desse fato, não é improvável que um pesquisador de literatura comparada venha a pesquisar a tradução de Blind Man with a Pistol e tecer teorias sobre a escolha do título, quando, na verdade, o título não foi escolha nem do tradutor, nem do revisor, mas da editora. Em outras palavras, o perigo de isolar a obra e considerá-la fruto somente do trabalho do autor e do eventual tradutor é desperdiçar esforços teóricos ao se desconsiderar os outros agentes envolvidos no processo de publicação.
Digressões à parte, o revisor não só é um leitor, ele é um leitor com experiência de leitura e representa todos os potenciais leitores do texto que revisa. De certa forma, o revisor traz o leitor para o processo de produção do texto, pois, estabelecida a comunidade interpretativa (conforme denominação de Fish, 1976), o revisor passa a representá-la e a sugerir alterações no texto que sejam mais adequadas aos leitores a quem o texto se dirige.
Sob essa perspectiva, reduzir a atividade de revisão à simples correção gramatical é ignorar o papel do revisor como um especialista textual e um especialista em leitura. No que diz respeito ao texto, são aspectos linguísticos que entram em jogo: padrões lexicais e terminológicos, padrões de coesão (específicos de gêneros textuais, por exemplo) e elementos sintáticos; no que diz respeito à leitura, são acessados aspectos extratextuais, de crítica literária, de teoria literária e de experiência de leitura (KOCH, ''Ler e compreender'', 2007). Estes são os pilares da boa revisão. Dominar regras gramaticais sem dúvida é um pré-requisito para a prática da revisão, mas não é a única nem a mais importante.
(por B. Pasqualini)
BRITTO, Luiz. A sombra do caos. São Paulo: Mercado de Letras, 1997.
FISH, Stanley. Interpreting the Variorum. Critical Inquiry, v. 2, n. 3, 1976. pp. 465-485.
HIMES, Chester. O Harlem é escuro. Tradução de Celina Falk Cavalcante. Porto Alegre, L&PM, 2007.
KOCH, Ingedore Villaça; VANDA, Maria Elias. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2ª. ed. São Paulo: Contexto, 2007.

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