8 de maio de 2014

O gênero de discurso acadêmico-científico

O gênero acadêmico-científico, baseado na semântica linguística, na descrição de um sentido linguístico.

Todas as esferas da atividade humana estão sempre relacionadas à língua. O uso da língua se dá em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, emanados integrantes da atividade humana. O enunciado mostra as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas: conteúdo temático, estilo verbal e construção composicional. Esses três elementos convergem para o todo do enunciado e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Vê-se, então, que qualquer enunciado considerado isoladamente, é individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, que são os gêneros do discurso. Cada esfera dessa atividade se diferencia e se amplia à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa.
A formatação normalizada faz parte do discurso científico.
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A partir das três características que formam um gênero, condições específicas, estilo e construção composicional, afirma-se que o estudo da natureza do enunciado e da diversidade dos gêneros do enunciado nas diferentes esferas da atividade humana são fundamentais para os estudos da área de linguística, porque um trabalho de pesquisa com um material linguístico concreto lida com enunciados concretos que se relacionam com as diferentes esferas da atividade e da comunicação. É necessária uma concepção clara da natureza do enunciado em geral e dos vários tipos de enunciados em particular, ou seja, dos diversos gêneros do discurso, para que uma pesquisa seja bem sucedida. Não levar em consideração a natureza do enunciado e as particularidades de gênero que marcam a variedade do discurso em qualquer área do estudo linguístico é condená-lo ao formalismo e à abstração. É necessário compreender como o gênero acadêmico-científico se constitui, visto que ele apresenta características e funções bem específicas.
O homem, pela sua própria existência, necessita atribuir significações ao mundo em que vive. Com isso, ele cria intelectualmente representações significativas da realidade. Essas representações podem ser definidas como conhecimento e podem ter diferentes vertentes: mítica, ordinária, artística, filosófica, religiosa e científica.
O gênero acadêmico-científico pode ser representado de forma caricata, pois existe a imagem ingênua de que a ciência busca técnicas de investigação para serem aplicadas em qualquer problema, garantindo a verdade científica e eliminando falhas. Percebemos que a ciência não apresenta verdades absolutas, mas explicações provisórias que dão ao conhecimento científico um estado hipotético permanente.
Podemos definir o gênero acadêmico-científico como conjunto de procedimentos não padronizados adotados pelo investigador, orientados por postura e atitudes críticas adequados à natureza de cada problema investigado. Assim, elaborar um discurso de caráter científico é produzir de forma crítica o conhecimento científico, levantando hipóteses bem fundamentadas e estruturadas em sua coerência teórica (verdade sintática) e possibilitando serem submetidas a uma crítica severa (verdade semântica) avaliada pela comunidade científica (verdade pragmática). Nota-se que não há somente uma verdade, mas três. Mesmo assim, elas não são suficientes para demonstrar a verdade de determinado enunciado, justificando a aceitação como um resultado certo, infalível.
Percebe-se, então, que o conhecimento científico é falível, pois o investigador pode elaborar hipóteses inadequadas, não planejar de forma adequada os testes de suas hipóteses, assim como não perceber provas contrárias, gerando conclusões impróprias. Pode-se constatar, assim, que essa falibilidade existe porque o conhecimento científico é uma retomada constante das teorias e problemas do passado e do presente, através da crítica severa e sistemática. Por esse sistema diacrônico, percebe-se que o conhecimento científico não cristaliza resultados das pesquisas, mas os considera eternas hipóteses que precisam de constante investigação e revisão crítica intersubjetiva. A proposta do conhecimento científico é o que é construído em condições de experimentação de suas hipóteses de forma sistemática, controlada e objetiva e ser exposto à crítica intersubjetiva.
Para a construção do texto acadêmico, é necessário ter claro quais são os limites e limitações das teorias com as quais se trabalha. A teoria não serve apenas para explicar o quanto as hipóteses são plausíveis, mas para elaborar os instrumentos e as técnicas de pesquisa e os parâmetros que interferem na interpretação dos dados. Tomemos como exemplo Saussure e Ducrot. Enquanto o linguista genebrino elabora uma linguística do sistema (língua), o teórico francês articula língua e fala, mostrando o uso a partir da língua. Nenhuma das duas teorias é melhor do que a outra, apenas são pontos de vista distintos. O conhecimento científico torna-se, então, uma constante busca por respostas e, ao encontrá-las, o pesquisador se depara com novos questionamentos e hipóteses.
Desmistificando a ideia de que toda ciência é objetiva e apresenta verdades absolutas, descartando a subjetividade, pensamos que é relevante mostrarmos algumas convencionalidades desse gênero. Visto que a forma é constituinte do sentido. Antes de abordar o que essas três partes devem conter, há alguns aspectos formais do gênero acadêmico-científico: o título e o subtítulo, se houver; o autor do texto, seguido de um indicador numérico para informar, em rodapé, sua titulação; o resumo ou abstract, que constitui uma apresentação concisa e seletiva do trabalho.
A introdução tem por finalidade apresentar o assunto ao leitor e colocá-lo a par da relevância do tema, e indicar qual o método que foi utilizado para elaborar as ideias. A introdução deve definir o assunto/tema que foi tratado, situar o assunto em relação ao tempo, à relevância do problema, à contribuição que tal assunto traz para a sociedade e para o ser humano, situar o assunto no espaço geográfico, estabelecer os objetivos do trabalho e as questões de estudo levantadas, apresentar a metodologia de busca da solução do problema e mostrar como o texto está organizado.
Considerando os aspectos linguísticos, deve haver impessoalidade no texto, o uso da terceira pessoa do singular na voz ativa é solicitado pela comunidade científica. Como todo texto, independente do gênero, apresenta um caráter subjetivo, admite-se usar a primeira pessoa do plural (pretendemos, neste estudo...) e a primeira pessoa do singular (eu pretendo, nesse estudo). Essa última ocorrência é menos usual, mas não está incorreta. É necessário evitar termos imprecisos, vagos, ambíguos, e ao utilizar uma terminologia técnica, explicar o sentido de forma que deixe claro para o leitor.
Considerando o desenvolvimento, sabe-se que ele é o corpo do trabalho. Geralmente é apresentado de forma descritiva e tem a finalidade de expor e demonstrar o objeto de estudo. Além disso, as proposições devem estar relacionadas, mostrando coerência entre as ideias. Para que a construção seja promissora, é preciso que o autor evite generalizações (“todos sabem que”, “alguns autores afirmam”, “geralmente...”). Não usando frases muito longas, palavras supérfluas, pedantismos, gírias na argumentação (marca do uso da língua), aumentativos, diminutivos e superlativos, tem-se homogeneidade de estilo e texto estritamente acadêmico.
A conclusão, por sua vez, constitui a fase final do processo de elaboração do texto científico, que teve início na introdução. É também um momento de recapitulação das conclusões a que o autor chegou em cada parte do desenvolvimento. Deve obter também a análise das hipóteses, conclusões a que o autor chegou ao longo de sua busca. A comunicação dos resultados é imprescindível e necessita ter uma relação estreita com os objetivos perseguidos e com as questões levantadas. Ideias novas não devem ser colocadas, elas devem ser fruto de outra pesquisa científica. A última parte que identifica um texto como sendo científico é a inclusão de referências, que fornece todas as indicações detalhadas sobre as fontes e documentos, entre outros elementos utilizados para a elaboração do texto.
Percebe-se, dessa forma, que um texto acadêmico apresenta características bem determinadas: toda hipótese deve ser fundamentada por uma teoria, que é permeada por conceitos que a definem e a distingue de outras. Além de conceitos, uma teoria apresenta marcas linguísticas bem específicas representadas pelos termos técnicos. A comunidade científica deve ter o domínio da teoria, dos conceitos e dos termos técnicos para que a pesquisa tenha um caráter acadêmico.
Com as características peculiares do gênero acadêmico-científico, pensamos que uma perspectiva tradutória é fundamental, pois analisaremos textos traduzidos e seus possíveis desvios de sentido.
Adaptado de Bez.
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