Narrativa imagética: a ciência como prazer

Construir uma nova estética do texto científico a partir de florações do imaginário em estado mais ou menos bruto, pulsante ainda. Parece uma tarefa fácil? Sim, se estamos no campo das técnicas profissionais da comunicação social, como é o caso do jornalismo.

Sim, novamente, se apenas estamos lendo um texto de Gaston Bachelard, o mago teórico das imagens mentais. E não, se o que se deseja é tentar traduzir, em linguagem verbal, uma nova narrativa para a ciência.
Dissertação também merece revisão e formatação profissionais.
O revisor acadêmico está atento a
aspectos estéticos inclusive no
texto científico.


Ao contrário do que é usual para as ciências ditas “humanas”, a narrativa imagética não está estruturada primordialmente no texto verbal. O tratamento verbal, nessa nova narrativa, é justaposto, complementar. O verbal, às vezes, chega a ser contrastante com os demais elementos expressivos do texto. Texto, evidentemente, num sentido muito amplo.
Às vezes, o verbal está até mesmo ausente do texto. Não se trata, aqui, da produção da um vídeo-documentário destinado à “divulgação científica”, o que é comum, ou de fotografias que comprovam uma teoria verbalmente expressa ou formulada matematicamente, muito menos de ilustrações que complementam
uma experiência empírica descrita segundo todos os parâmetros metodológicos aceitos.
Trata-se de construir hipóteses com a imagem, de “escrever” a ciência através da metáfora e, o que é mais divertido, de deixar mudos os argüidores, não apenas porque não dominam o código, mas porque a imagem, num primeiro momento, suplanta mesmo a palavra.
Aí está: ciência não tem que ser algo sisudo, mal-humorado e compenetrado demais.
A seriedade não significa nem falta de humor, nem falta de prazer. Fazer ciência pode e deve ser muito divertido. Afinal, é o exercício adulto da curiosidade infantil, satisfeita, na criança, na extrema seriedade da brincadeira. A tradução do mundo em imagens é característica da primeira infância; há, na literatura e na arte, toda a riqueza cultural da humanidade, mas também a criatividade e a inovação de toda descoberta do mundo. Há emoção. Por que a ciência não pode ter tudo isso?
Josimey Costa da Silva fala sobre prazer no texto científico.
Josimey Costa da Silva*
É preciso tentar quebrar as amarras que um texto científico objetivo, preponderamentemente conceitual, impõe à expressão do pensamento. Como traduzir uma emoção, por mais tênue, por mais breve que ela possa ter sido? Por outro lado, como extirpar o mínimo traço das emoções que pontuam qualquer ação humana, inclusive a mais científica? E o que é realmente muito angustiante: como dar pelo menos um fio de vazão aos oceanos que inundam o imaginário e que fundamentam nosso ser no mundo?
Certamente, estas palavras não espelham toda a inquietação de quem se aventura por esse caminho frente tantas questões. Mas a metáfora dos oceanos que vazam por um fio muito provavelmente terá despertado, em você, imagens que se irmanam com as minhas próprias. E as palavras que eu usei ou que você possa usar para repetir a experiência certamente serão sempre demasiadamente pobres.
As imagens são a base da nova narrativa que está sendo proposta. Imagensmetáforas nos textos verbais. Imagens óticas noutro tipo de elaboração. Imagens que se comunicam diretamente com imagens, que produzem outras imagens, puramente mentais.
Essa é uma narrativa que busca configurar a própria experiência da abertura que a imaginação representa para o espírito humano. Mas é preciso encher a imaginação de imagens para poder viver diretamente a imagem. Se você se interessou pelo que estou propondo, ouça agora uma música inspiradora. A música é sempre um bom começo.
*Jornalista, mestre em Ciências Sociais e professora de
Telejornalismo e Comunicação Cinematográfica da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN.