8 de outubro de 2009

Como escrever palavras compostas

Foto: Rafael Andrade/
Folha Imagem

Bechara no Estadão
22 de fevereiro

Evanildo Bechara*

No uso ou não uso do hífen, temos de distinguir casos que o novo acordo ortográfico separa com cuidado. Um leitor nos confessa que não sabe "se deve escrever palavras juntas, com hífen ou simplesmente separadas". E exemplifica citando "latino americano e café com leite (política do café com leite)".

Ora, "latino americano" se inclui na Base XV que manda usar o hífen nos compostos por justaposição que não contêm formas da ligação e cujos elementos são de natureza nominal (substantivo e pronome), adjetival, numeral e verbal. Em artigo anterior, tratando deste caso, lembramos matéria-prima, norte-americano, a que se vai juntar latino-americano, da sua pergunta.

Quanto a café com leite, designativo de um tipo de união política, trata-se de uma locução que, como locução de qualquer natureza, o acordo de 1990 manda não escrever com hífen, mas separadamente, como acabamos de fazê-lo. Esta iniciativa do novo acordo veio livrar as pessoas de usar o hífen para distinguir significados ou classes de palavras. Éramos, segundo o sistema vigente oficialmente em 2008, obrigados a distinguir o substantivo dia-a-dia, com hífen, locução significando "cotidiano", de dia a dia, locução adverbial, sem hífen, valendo por "dia após dia": "O meu dia-a-dia (isto é, o meu cotidiano) é agradável." "A criança cresce dia a dia (isto é, diariamente, dia após dia)."

O mesmo acontecia com à toa: se era adjetivo, significando "coisa de pouca importância" ou "pessoa sem-caráter", usava-se com hífen: "Trata-se de um problema à-toa"; mas como advérbio, significando, por exemplo, "inutilmente", usava-se sem hífen: "Foi lá à toa."

Hoje todas as locuções escrevem-se sem o hífen: problema à toa, foi à toa. Portanto, se você disser "gosto de café com leite" ou "política do café com leite", não precisará usar hífen em nenhum dos casos. Pelo sistema anterior, teria de usar, no segundo exemplo, "política do café-com-leite", por se tratar de um composto.

O acordo consagra como exceção as locuções água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa.

Nesta resposta podemos incluir a pergunta de outro leitor que indaga como escrever fim de semana, tique taque e cor de rosa. "Como saber? Será necessário consultar o dicionário a cada vez?"

Não haverá necessidade de consultar "a cada vez"; basta fixar os princípios gerais e o leitor terá quase sempre a resposta pronta. Por exemplo, fim de semana e fim de século dispensam o hífen, como vimos atrás, porque se enquadram no princípio das locuções. Tique-taque requer o hífen por estar, segundo cremos, incluído no princípio da Base XV, também atrás anunciado.

Ora, tais formas de redobro, geralmente onomatopeicas, atendem uma a uma a cada exigência que justifica o emprego do hífen em tais palavras.

Tais formas onomatopeicas não mereceram a atenção do acordo, razão por que ressaltamos no "cremos" a nossa opção de hifená-las por julgar incluídas no princípio da Base XV. A tradição ortográfica neste particular apresenta registro variado. Se tique-taque, como reco-reco, aparecem hifenados em dicionários brasileiros, portugueses e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), o mesmo não se dá com zum-zum, escrito zunzum, sem hífen, embora se registre zas-trás hifenado.

Procurando disciplinar a grafia de tais palavras na 5ª edição do VOLP da Academia Brasileira de Letras, tínhamos presente a lição de Saussure que, não sendo as originalmente onomatopeias elementos orgânicos de um sistema linguístico, quando entram no discurso, perdem algo do seu caráter primário para adquirir o do signo linguístico, exercendo função análoga à de outras palavras.

Além dos princípios gerais, o utente tem de conhecer também as exceções, exceções que não são exclusivas da ortografia, mas de todos os campos da língua registrados na gramática e no léxico. Por isso, há de atentar para o fato de que cor-de-rosa está entre as exceções da Base XV, e embora seja uma locução, ostenta grafia com hífen. O acordo cita poucas e é bom tê-las presentes.

Evanildo Bechara é filólogo e gramático, membro da Academia Brasileira de Letras e Coordenador da Comissão de Lexicografia e Lexicologia da instituição.



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