26 de abril de 2009

QUEM SABE REVISAR?

Quem pode revisar?
O que as investigações realizadas sobre a revisão demonstram é que os autores veem a escrita como processo de etapa única, em que o texto, uma vez escrito no papel ou no computador, não é mais alterado. Mesmo com o uso de processadores de texto, onde fica extremamente fácil introduzir qualquer modificação no texto, as revisões permanecem escassas (Hawisher, 1986; Kurth, 1986; Daiute, 1986). Se deixados por sua conta, os autores não revisam seus textos espontaneamente, quer contando com a facilidade proporcionada pelo computador, quer com a presença de outros recursos, como dicionários ou gramáticas. Descartam também o fato de que resultados melhores são obtidos com a adoção de intervenções do revisor no texto. Situações em que há encaminhamento do texto ao revisor e em projetos colaborativos, onde autores de obras coletivas escrevem e lêem os textos uns dos outros, geram resultados significativamente melhores que os obtidos por autores que se isolam. Na medida, porém, em que a revisão é forçada pela necessidade do revisor profissional ou feita com a ajuda do colega, em procedimento cooperativo (também propiciado pelo revisor), ela deixa de existir como auto-revisão, na acepção exata do termo.
A questão não respondida é se o autor sabe ou não revisar seu próprio texto, se é capaz de fazer a auto-revisão. Há, na interpretação da bibliografia revisada, uma confusão entre não fazer e não saber. Sabemos que os autores espontaneamente não revisam seus textos, mas não sabemos se eles realmente não sabem revisar. Não revisar é diferente de não saber revisar. É possível que esses mesmos autores, que não revisam seus textos, saberiam como fazê-lo se estivessem numa situação em que a auto-revisão fosse de alguma maneira inevitável.
Define-se a revisão como a introdução de interferências no texto visando sua melhoria. Essas mudanças podem atingir palavras, frases ou parágrafos e ocorrem por exclusões, inclusões, inversões ou deslocamentos. Tratando-se de um processo de auto-revisão, as mudanças são feitas pelo próprio autor sem a ajuda do colega ou do revisor.
Para revisar basta saber português?
Os autores serão capazes de revisar autonomamente seus textos? Se revisarem, que aspectos irão privilegiar? Ortografia? Vocabulário? Sintaxe? Estilo? Conteúdo?
A hipótese que assumimos é que, dadas as condições, o autor é capaz de fazer a revisão de seu próprio texto. Essa revisão pode afetar questões de correção gramatical (ex.: ortografia, concordância), mas principalmente as questões de estilo, incluindo aí mudanças na seleção de vocabulário – substituindo, por exemplo, palavras de sentido vago por palavras mais precisas – e de construções sintáticas – incorporando, frases simples num período composto por mecanismos coesivos. Essas mudanças podem não tornar o texto mais correto gramaticalmente, porém mais coerente, fluente, expressando melhor a relação entre as idéias. O autor não vai primeiro escrever errado para depois escrever certo. A hipótese é de que ele já vai tentar escrever corretamente na primeira versão, conseguindo se tiver a necessária competência. O que ele vai procurar é melhorar a expressão de suas idéias, tornando-as provavelmente mais claras na reescritura.
A condição que requer a necessidade do revisor profissional é a qualificação da competência formal somada a da alteridade interveniente. É provável que o autor, ao perceber que, de certa maneira, tem que reescrever todo o texto a cada releitura, acabasse introduzindo as mudanças que, em sua opinião pudessem melhorá-lo, todavia passa a reler cada vez mais superficialmente, posta a intimidade cada vez maior entre produtor e produto.

Livremente adaptado de: LEFFA, Vilson J. O processo de auto-revisão na produção do texto em língua estrangeira. Trabalho apresentado no XI Encontro Nacional da ANPOLL, João Pessoa, 2 a 6 de junho de 1996.

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