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1 de setembro de 2014

Composição e redação de textos

Compor é a atividade central da criação estética, trata-se do processo de produção de um texto, uma página, uma tela, ou uma melodia. A essência da composição de um texto não é escrever palavras, ideias, fatos, mas desenhar o texto.

Os termos composição e redação de textos são usados um pelo outro frequentemente. Inicialmente ligado à arte expressiva, por exemplo, pintura, música ou composição erudita, o termo composição transmite a ideia de criatividade ou inovação, apesar de que, atualmente, ele esteja sendo usado para a criação de qualquer tipo de conteúdo composto, de um lembrete a um romance ganhador de prêmio, de uma vitrine ao vestuário pessoal.
Composição e redação de texto não são exatamente a mesma coisa.
A composição é um gênero dentre
a espécie redação.
Usando o termo composição em sentido mais próprio, no campo das literaturas, ele sugere mais que a redação simplesmente, ele propõe uma montagem inovadora de palavras e se refere a bem mais que a alguma transcrição, relato ou justaposição de ideias. A noção de composição ultrapassa a de redação, mas nela está contida. Eu diria que composição é a redação em que há preocupação estética ou formal (mas não formalista) com o texto. Até mesmo pode ser dito que, na composição, o conteúdo serve à mídia, mais que o contrário disso.
Normalmente, nós revisamos teses e dissertações: textos em que o conteúdo prevalece sobre a forma, quanto à relevância, mas que se subordina ao formalismo, em perfeita subsunção à forma canônica. Aqui se fala de “redigir uma tese”, nunca “compor uma dissertação”. Mas quando tratamos de um soneto, em que a poesia também se dobra à forma canônica, podemos claramente referir a compor os quatorze versos, assim como se podem compor versos livres e brancos, sem qualquer forma preestabelecida, pois o caráter estético da criação se impõe sobre qualquer outra consideração.

Paradoxos da composição

  • A escrita é, ao mesmo tempo, procedimento individual, processo cognitivo e criativo, por um lado, e produto social, processo convencional, de outro ponto de vista.
  • Cada estilo é função da identidade idiossincrática do escritor e, ao mesmo tempo, função da matriz social em que a escrita e o escritor são incorporados.
  • A língua escrita tanto reflete a identidade do escritor quanto cria essa identidade.

Composição de estilos

Há três estilos de composição, pelo menos:
  • O estilo “ruminante” – o autor (compositor, poeta, ensaísta…) é inteligente, contempla decisões linguísticas, escolhas ideais, é dado a construções “cerebrais”, é efetivamente dominado por um pensamento (eventualmente focal) ou pelo jogo de palavras.
  • O estilo investigativo – o autor (romancista, doutorando, articulista…) é cauteloso, exato, concentrado de detalhes formais da composição, do processo criativo, restringe o trabalho (cortes temporais ou léxicos, por exemplo) em vez de usar livremente todos os recursos.
  • O estilo pragmático – o autor (jornalista, publicitário, mestrando…) tem tendência a se estabelecer em construções pouco interpretativas e composição focadas no público-alvo, tendo em conta a motivação por trás da redação.

Um estilo específico pode conter segmentos de outro estilo para disfarçar motivações, por deslize consciente ou mesmo lapso. Por exemplo, o autor “ruminativo” pode ter tendência a dar sequência cronológica ao texto e o autor investigativo pode ter tendência a desenvolver tópicos de nível de parágrafo em construção analítica do argumento.

Modelo ideal de composição

O modelo ideal tende a ver a composição como arranjo direto dos estágios cognitivos, com ênfase em estilo e dialeto, como se o conteúdo fosse essencialmente esforço na articulação precisa do conjunto em torno da realidade visível; a metodologia padrão de compor tem tendência para ressaltar a concordância de diferentes modos de fazer, com base na singularidade do entendimento de cada autor da realidade e do cânone imposto, e baseada também na exigência de ele utilizar o dialeto como método e mídia comunicativa, antes e em meio à metainterpretação. O modelo ideal de composição tem se centrado no arranjo preconizado para distribuição do conteúdo (alteração da ordem natural das sentenças, congruência de uso e organização parassintática, coerência e coesão hiper e transtextuais), com a metodologia focada centralmente e a tendência a estender centrifugamente o argumento, acentuando exercícios de rascunhar (criação, estruturação de dados, aposição de argumentos e referências). O modelo está focalizado principalmente no lançamento da criação (alocar o trabalho escrito – publicitar, ressignificar), configurando o conteúdo final (alterando, reescrevendo, revisando), preocupando-se principalmente (porém não exclusivamente) com o que acontece na mídia e por último na criação de conteúdo – configurando os métodos que compõem a realização real ou como o autor individual vai encontrá-los.

Além de modelos de composição

Não temos visto grande quantidade de pesquisa sobre os processos de composição textual, razão pela qual não sei aonde ir a partir daqui. Como adendo, vejam que é recorrente uma construção alegando determinado texto ter composição modernista ou neoconcreta, mas abstrair o que há de composicional ali já não é tão frequente. O referencial está sediado no produto, mais que no processo de produção. Compreende-se a composição como perfectum, mas nem tanto como infectum, em referência quase metafórica aos modos latinos, mas guardando a alguma propriedade material.
Os modelos de criação parecem afirmar que a composição seja tão imprevisível, diferente e dependente da conexão que se deve descobrir como destruir a rota excepcional e especialmente designada por causa de circunstâncias completamente díspares. Da mesma forma, os indivíduos parecem percorrer rotas alteradas, subordinado suas identidades e as circunstâncias adjacentes. Isto aparece no questionamento quanto ao grau em que se deve exigir determinado padrão de fazer rígido e sem alternâncias. Até parece que a chamada ao questionamento quanto à necessidade de ajudar o compositor (autor) novato consiste em propor a metodologia ou qualquer conjunto de normas gerais para compor. Propõe-se que apresentar as generalizações e as normas e métodos de compor em teoria, questões aleatórias para tarefas específicas, não seja discricionário, e a realização de tais empreendimentos andragógicos dependerá completamente de se tais generalizações, padrões e metodologias são o que qualquer ensaísta (autor) iniciante precisa especificamente naquele minuto. Restará equacionar a pertinência e a eficiência de tais procedimentos, os resultados deles.
Um artista conjuga elementos que podem parecer contraditórios e os organizas em um todo que seja praticável, bem como satisfatório e genuíno, ou mesmo maravilhoso. Quem se levantar de manhã, vai decidir como empregar seu tempo e dinheiro, assumir compromissos, responsabilidades, estará fazendo um pouco de simbolização da vida, estará compondo sentidos e textos, mas não estará redigindo – e eis mais um paradoxo: tais textos e sentidos podem ser compostos numa redação ou em muitas.

Regência: o verbo preferir

Segundo dicionários de regência verbal, o verbo preferir significa basicamente dar prioridade ou preferência a; gostar mais de, escolher ou querer antes. É querer antes de alguma outra coisa ou várias coisas!

“Minha mãe disse que prefere ir para o Nordeste de que fazer uma viagem ao Sul.” [Inadequado]
Para a construção do significado, algumas palavras da língua portuguesa usadas por nós exigem o acompanhamento de outros elementos linguísticos. A essa relação de dependência exigida pela norma culta, com o propósito de produzir um significado, chamamos de regência.
Mestrando e doutorandos de instituições importantes revisam sempre suas teses.
Muitos autores de tese ou dissertação
preferem revisar seus textos conosco.
Vamos então fazer um apanhado do assunto em questão. Preste atenção, é bem simples!
A regência verbal pode se dar de duas maneiras, conforme descrito a seguir:
Direta, quando a relação de dependência é imediata (João ama Maria).
Indireta, quando ela é intermediada por outros elementos da língua, como as preposições (João gosta de Maria). 
O objeto direto e o objeto indireto fazem parte dos complementos verbais das frases. Não podem se separar deles, pois completam o sentido dos verbos transitivos diretos e indiretos que, quando sozinhos na oração, possuem significado incompleto.
Exemplos de verbos transitivos diretos:
Gustavo comeu o lanche.
Gabriela esperava a mãe.
Exemplos de verbos transitivos indiretos:
Eu duvidei da opinião da jornalista.
O menino respondeu à pergunta da professora.
Nas situações em que empregamos a regência indireta, precisamos observar que nem todas as preposições podem desempenhar o difícil papel de ligar o regente ao regido, “a tampa à panela”. E mais, além dessa condição essencial para obter o significado pretendido, o uso de uma ou outra preposição pode até mesmo provocar alterações de significado bastante consideráveis. Suponha que um estrangeiro pouco familiarizado com nossa língua queira dizer “preciso ir para casa”, mas ao invés da preposição para, use equivocadamente a preposição na, formando dessa forma a frase “preciso ir na casa". Seria confuso para quem o ouvisse falar, concorda?
Porém, há ainda verbos a nosso redor que podem, ao mesmo tempo, ser transitivos diretos e transitivos indiretos, tendo um sentido quando não exigem preposição e outro sentido quando a exigem. O verbo preferir, que nos trouxe até o presente texto, é bitransitivo. Isso mesmo, ele é capaz de ser transitivo direto e indireto, mas sempre exigindo a preposição a (preferir alguma coisa a outra):
Prefiro dormir a estudar regência verbal.
Na linguagem cotidiana, no entanto, é extremamente comum o uso – incorreto, de acordo com a norma – do verbo preferir para fazer uma espécie de comparação, como “prefiro isto do que aquilo”, como se preferir fosse “gostar mais” de algo. Na verdade, não. Preferir é escolher, pôr alguma coisa antes de outra, preferível à outra. Então vamos reforçar:
O verbo PREFERIR rege dois objetos, sendo o direto aquilo que se escolhe, e o indireto, regido pela preposição a, que é aquilo que se deixa em segundo plano, o que não é preferível. Logo:
“A mãe prefere ir ao Nordeste a fazer uma viagem ao Sul.” [Adequado]
O verbo da frase vista no início do texto é transitivo direto e indireto, possui um objeto direto (complemento sem preposição) e um objeto indireto (complemento com a preposição a).
Exemplos:
“Prefiro cinema a teatro.” [Adequado]
“Prefiro cinema do que teatro.” [Inadequado]
Objeto direto: cinema.
Objeto indireto: teatro.
“Meus alunos preferem o brinquedo ao livro.” [Adequado]
“Meus alunos preferem o brinquedo do que o livro.” [Inadequado]
Objeto direto: o brinquedo.
Objeto indireto: ao livro.
Além de não ser indicado usar o verbo preferir com a locução conjuntiva do que, devemos também evitar o seu uso com o advérbio mais:
“Prefiro andar de bicicleta.” [Adequado]
“Prefiro mais andar de bicicleta.” [Inadequado]
Concluímos então que alguns verbos são transitivos diretos, não exigindo preposição, outros são transitivos indiretos, exigindo preposição e ainda que há verbos que eventualmente utilizam as duas regras na mesma oração, como o nosso tão frequente preferir.
Por Gustavo Mani.