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4 de setembro de 2014

Ter a ver ou ter a haver?

Na revisão de textos científicos, deparamo-nos com uma série de lapsos e outra de dúvidas dos autores sobre questões simples. Expressões da linguagem oral, registradas das entrevistas, devem ser transcritas com cuidado. Ter a ver ou ter a haver é um desses casos.

Essas expressões – populares e da linguagem falada – registradas muitas vezes incorretamente, prejudicam quem não as conhece da maneira correta e deixa de cabelos em pé quem conhece bem e presencia tal erro de grafia. Refiro-me às expressões “ter a ver” ou “ter a haver”, tão correntes na boca do povo e com frequência corrigidas pelos bons revisores de plantão.
É necessária muita atenção a palavras parônimas.
Não tem nada a ver entregar uma tese
para defesa sem revisar o texto.
Uma só letra, neste caso o “h”, faz uma imensa diferença de significado em uma oração, e por menor que seja, desencadeia uma série de equívocos semânticos. O problema acontece geralmente porque “haver” e “a ver” são parônimas (têm sentido diferente, mas formas semelhantes) e, além desse pormenor, são homófonas, ao passo que produzem praticamente o mesmo som!
Antigamente a expressão “ter a ver” era constituída pela preposição “que” ao invés da preposição “a”, formando a expressão “ter que ver”, diferença essa que não provocava a atual semelhança e consequentemente o erro. Provavelmente incorporamos a maneira francesa de se falar, talvez um caso de eufonia, buscando deixar o som mais “agradável” para os falantes.
Vamos então esclarecer de uma vez a confusão:
  • A expressão ter a ver, usada também na forma negativa como “não ter nada a ver”, vem seguida pela preposição “com” e é usada no sentido de “ter relação com”. 
  • A expressão ter a haver tem sentido de “ter a receber”, ter algo como crédito. A expressão ter haveres, por sua vez, significa ter bens, riquezas, crédito.

Portanto, a expressão “não ter nada haver” é incorreta. Devemos empregar a expressão “não tem nada a ver” sempre que quisermos referir que algo não está relacionado e não diz respeito a alguma coisa, não ser do interesse de. Porém, se o uso fizer referência a um crédito, o uso indicado é o “ter a haver” no sentido de ter algo a receber e, claro, sempre com a preposição “a” e nunca sem ela ou com a preposição “em”.
Nós temos muito a haver com nossos clientes, pois já efetuamos todas as entregas. (adequado)
Marta não tem nada a haver. (adequado, usado no sentido de “não ter nada a receber”)
Eu tenho uma quantia em haver com você. (inadequado)
Agora voltemos à expressão “ter a ver”, que faz parte da confusão, de uso muito frequente no cotidiano das pessoas e que, portanto, deve ser esclarecida quanto à maneira adequada de escrevê-la, pois é algo simples de se memorizar e, além disso, é um tipo de erro que de maneira nenhuma será admitido em textos sérios como teses, dissertações e trabalhos acadêmicos em geral! Observe alguns exemplos do caso: 
Menino, o que você tem a ver com os problemas alheios? (adequado)
Márcia não teve nada a ver com o acidente no trabalho. (adequado)
Logo percebi que este assunto tinha tudo a ver com minha família. (adequado)
Todo problema na escola tem sempre a ver com você! (adequado)
Isso não tem nada a ver com minha ideologia de vida. (adequado)
Não dê ouvidos, o que ele diz não tem nada haver. (inadequado)
Mas, agora, preste atenção! Na língua portuguesa, podemos encontrar a forma “nada haver”, não constituindo uma expressão com significado fixo, mas a união do advérbio nada + verbo haver. Seguem os exemplos:
Por nada haver para fazer, decidi passear com o meu cachorro.
Acabei não escolhendo por ele nada haver dito sobre a sua preferência.
Para o exercício de física tem que haver somente uma solução.
Fique sempre de olho e busque evitar gafes como essa! Mas caso queira ter certeza da qualidade de um texto, um bom revisor sempre ajudará a eliminar situações e erros do tipo, muitas vezes não identificados por quem o redige.
Por Gustavo Mani.

3 de setembro de 2014

Problemas estruturais no texto acadêmico

Vamos discutir algumas ocorrências, comuns em textos acadêmicos, focando em problemas de estrutura retórica que podem resultar em ineficaz ou inadequada interpretação em virtude de deficiências de coerência.

Colocaremos primeiramente algumas observações quanto ao significado atribuído ao termo coerência textual em relação outros dois aspectos fundamentais da textualidade: a consistência e coesão, observando que ele é usado em linguística com dois diferentes significados:
Há questões de coerência textual de que só o revisor dará conta.
Par dar conta da estrutura de
um texto longo, só um atlante,
ou um revisor profissional.

  • Primeiro, o conceito de coerência em sentido restrito é definido negativamente, como como ausência de contradições, como não-contraditório. Nesse sentido, coerência corresponde ao inglês consistency e ao alemão Widerspruchslosigkeit.
  • Segundo, o outro sentido de coerência corresponde à conexão de peças de um todo, a coesão semântica ou pragmática, a integralidade em contexto de mais declarações. Nesse sentido do termo, o conceito de consistência conceito é positivos e corresponde ao inglês coherence e o alemão Kohärenz.

Nos dois sentidos acima, há ainda a dicotomia em relações internas de consistência, intrínsecas a cada texto, ou externas, extrínsecas ao texto.
A interpretação de um texto, compreendida como construção de sentido, requer, além do conhecimento linguístico e posturas epistemológica ou doxológica do intérprete (os seus conhecimentos e crenças), tanto sua concepção do mundo quanto seu sistema de valores. O conceito de coerência textual na interpretação é um processo dinâmico e dialético, em que o assunto (as sequências textuais) interage com os processos cognitivos.
Em caso de texto escrito, compete ao leitor, na ausência do autor, recompor o quebra-cabeça (e completar as peças que faltam – e sempre faltam) para obter um texto coerente, que alcance completude (ou se aproxime disso) durante o processo interpretativo. Em outras palavras, texto é texto (em virtude de sua interpretabilidade e coerência) só quando e se alguém considerá-lo como tal, assumindo o papel de intérprete.
Este tipo de consistência interpretativa, ou o rastreabilidade durante o processo de interpretação global, atribuindo unidade intersubjetiva de significado, é condição necessária de qualquer texto. Em contraste, os aspectos formais de coesão e consistência são qualidades que podem também não estar presentes em alguns tipos de textos, ainda que a interpretação empreste ao texto, por indução ou subsunção, o nexo de consistência de que esteve carente na origem. Nesse caso, terá havido conexão entre o texto e o leitor, mas o grau da subjetividade interpretativa será tão ampliado quanto maiores forem as lacunas (as peças que faltam).
A ideias introduzidas pela teoria de relevância podem fornecer insights úteis para a análise de problemas de coerência em teses e dissertações, em virtude da ocorrência de inconsistências entre os caminhos de interpretação previsto pelo autor do texto e esses complementos interpretativos inseridos pelo leitor.
Desde que a relevância varia inversamente ao esforço interpretativo, o fato de que a interpretação é facilmente acessível dá um grau inicial de plausibilidade. É também razoável o leitor (ou ouvinte) se satisfazer com a primeira interpretação que alcance suas expectativas, porque, em geral, basta aquela interpretação. O autor quer seu enunciado tão fácil quanto possível para se fazer entender – dentro dos limites da complexidade do argumento e das habilidades que ele tem de articulação – para que a primeira interpretação que satisfizer o leitor guarde coerência com a intensão do sentido desejado transmitir. Um enunciado com dois sentidos aparentemente satisfatórios competindo entre interpretações plausíveis, causaria no leitor desnecessários esforços de escolha e a interpretação resultante corre o risco de não satisfazer ao autor.
Na composição do texto longo, ou mesmo numa redação mais simples, o autor deve ter em conta os possíveis caminhos de leitura e encontrar a estratégia de desenvolvimento que tornem o texto eficiente em virtude de sua relevância para o leitor; na próxima fase de elaboração, essas estratégias podem ser alcançadas também pelos instrumentos formais correspondentes aos princípios de coesão e coerência micro e macro textuais, interna e externa.
A ordem hierárquica entre estes fatores reflete que, entre coerências e a coesões, enquanto falta continuidade superficial ao texto, pode haver dificuldade ou desvios no processo de interpretação (sem necessariamente comprometer a intelecção, mas sempre com tal risco). A falta de atenção para a eficaz seleção e disposição de informações contextuais (em virtude dos princípios de acessibilidade e relevância) não pode ser recuperada usando ferramentas formais de continuidade textual.
Os fenômenos linguísticos de rupturas de coesão e coerência observados por nós, durante revisões em textos acadêmicos, parecem destacar o aparecimento de problemas comuns no processo de produção textual. Em particular, problemas de leituras e composição fragmentadas, processos de reformulação do texto e retificação das informações necessárias, reescritas dos textos do corpo do trabalho. A correlação entre os problemas de coesão e falta de alinhamento retórico é tanto evidente em casos de relação parasitária do autor com suas fontes, com as inserções de citações (principalmente as diretas, mas também as também as paráfrases) que, muitas vezes, denota falta de estruturas informativas nativas no texto.
É possível fazer que esses problemas sejam afastados se, na fase de planejamento do conteúdo do texto, se preconiza uma estrutura retórica à qual o referencial alheio se subordine: os problemas de conexão textual e coerência expostos advêm da tentativa de redigir o texto em torno das citações, dos dados e das imagens que seriam complementares, argumentos. Os problemas são resultado de incorreto ou incompleto planejamento do texto e de sua estrutura de informações ou forma; os problemas de coerência semântica e adequação mencionados poderiam ser interpretados como sinais da pobre composição cenográfica das ideias e falhas de processamento do conteúdo, que é resolvido apressadamente, concorrendo para inconsistentes combinações de vocabulário ou emprego inadequado de conectores.
Um dos nós centrais do problema é a ausência conexões macrotextuais e as dificuldades para perceber estratificação dialogística da linguagem textual em uma tese, ou um romance, mantendo a tendência a reproduzir, em textos formais, estratégias e sinais semelhante aos de comunicação oral. Este recurso tem em si a falha de que não existe macrotexto oral, em termos mais genéricos, portanto há uma sobrecarga na superfície do texto sem compensação estrutural de fundo. Esta sobrecarga também pode explicar, em parte, os fenômenos analisados.
Inspirado por Ciccoloni.