Fundamentos para a revisão de textos procedimentais

A contribuição da categorização e dos gráficos contextuais para a explicação do modo de agir.

Explicar como fazer é habilidade importante, uma vez que grande parte da atividade diária da produção verbal trata de dizer a alguém como fazer algo, o que também ocorre quando se trata de escrever um manual de operação de um sistema técnico, ou para treinar aprendizes. São os chamados textos procedimentais ou procedurais. Ser capaz de melhorar esse tipo de texto, revisando-o, para efeitos de transmissão direta, coerente e eficaz de informação é, portanto, importante componente da competência de autor e de revisor.
A revisão dos textos tem sido concebida como resolução de problemas e como aperfeiçoamento contínuo do produto textual. É nessa corrente que situamos nosso trabalho em se tratando da revisão dos textos procedimentais, considerando a melhoria do texto como componente da própria atividade de produção verbal.
O saber-fazer é feito de conhecimento e ação no cumprimento de uma tarefa.
Este texto tem sequência em:
A revisão da produção
verbal de procedimentos.
Deve-se ter em conta que a atividade da revisão faz parte da própria tarefa de escrever (como interferência em textos próprios – ITP), constituindo subprocesso inerente, ou surge como posterior identificação de problemas e de aperfeiçoamentos em tese (como interferência em textos alternos – ITA); a seguir, a revisão consiste em resolver a tarefa, ou o problema, em reexaminar as indicações verbais que descrevem a execução das tarefas ou a definição dos problemas, indicando-lhes estruturas eficazes e eficientes, soluções e encaminhamentos.
Para identificar os componentes da revisão autoral, como primeiro passo, descrevemos a resolução dos problemas de concepção da produção verbal e da categorização contextual como suporte dessas atividades de design textual que também seriam a base da ITA. Em segundo passo, definimos o que é a tarefa descrita no texto a partir do trabalho realizado em nossa cognição. Essa descrição inclui os quesitos resolução de problemas. No terceiro passo, revisa-se a descrição da ação proposta. Finalmente, apresentam-se modelos de tarefa e resolução de problemas que podem explicar as atividades de revisão, incluindo a abordagem de produção, incluindo ITP, e de revisão como ITA, na geração de explicação. Conclui-se a contribuição da abordagem “resolução de problemas” para a revisão da expressão verbal das tarefas, identificando nove quesitos de revisão do texto processual.

A revisão da produção verbal de procedimentos

A contribuição da revisão para a clareza, eficácia e eficiência de textos procedurais. 

A tarefa de produção verbal de textos procedimentais consiste em descrever a realização de determinada tarefa, ou em como resolver determinado problema. A expressão verbal, pelo autor ou para o leitor, do saber-fazer difere este de outros tipos de produções verbais: deve ser suficientemente informativo para orientar a realização de ações concretas em objetos. Segue-se que uma das atividades de revisão, específica da produção verbal de procedimentos, diz respeito à exatidão das informações de natureza processual (quesito 5). É o discurso suficientemente preciso para que as ações descritas sejam inequivocamente realizáveis, tanto nas ações (usar o mouse vs. clicar no mouse) quanto nos objetos a que essas ações se aplicam (no mouse vs. na tela).
A atividade de revisão é uma tarefa, por si,  ou solucionadora de problemas.
Este texto é precedido por:
Fundamentos para a revisão
de textos procedimentais
A precisão da informação é a principal distinção entre o texto sobre o conhecimento e o texto sobre o procedimento. A distinção entre o texto epistêmico e o texto pragmático refere-se à natureza das inferências a serem feitas pelo receptor. Os textos epistêmicos tratam de generalizações sobre o conhecimento, os textos pragmáticos são específicos em descrições ou instruções, aquelas que o receptor do texto poderá repetir em função da particularização, desde que concirnam exatamente a objetos com que atuar, ações que fazer e correspondente ordenação de objetos e ações. Assim a proposta de “voar” para cidade de Beijing em um texto epistêmico para crianças que vivem em Brasília significará possivelmente “você tem que se locomover para longe”. Num texto pragmático, a mesma proposta deve tornar possível saber como chegar a Beijing concretamente e, em vez daquilo, “voar” aqui significa “comprar um bilhete de avião”. Essa distinção (texto epistêmico/ texto pragmático) é encontrada com a oposição entre o conhecimento declarativo e o conhecimento processual, entre textos opinativos e textos procedimentais. O conhecimento declarativo incluiria, de acordo com essa distinção, as descrições dos objetos, seus estados e a relação entre os objetos e sua natureza, ao passo que o conhecimento processual incluiria as transformações de estados de objetos e os meios para obter as transformações.

Revisão de texto em tempo real

Consciência metapragmática e a atitude metacognitiva epistêmica em escritores acadêmicos.

Os estudos sobre fluência verbal escrita estão intimamente relacionados à micro e macroestruturas da fala, em que o emissor deve gerenciar processos de planejamento conceitual e linguístico. Já o escritor tenta controlar processos internos, representações e ideias e convertê-los um produto verbal com registro gráfico linear da forma mais fluente possível. Como resultados, a memória de trabalho e memória de longo prazo têm papeis centrais em ambas as elaborações, porque elas são responsáveis por processos cognitivos e de controle e armazenagem de todos os conhecimentos necessários envolvidos. Quando o escritor tem que produzir o texto sob pressão, é forçado a controlar eficazmente os processos com estresse aumentado – o que é bem frequente e pode resultar extrapolação da capacitância cognitiva, com prejuízos claros para o texto.
A intervenção em textos próprios ou
em textos alternos tem profundas
diferenças cognitivas e epistêmicas.
A tarefa de escrever requer a realização de uma série de complexas atividades cognitivas, tais como recuperação e ordenamento de eventos da memória de trabalho, leitura avaliativa, resolução de problemas e a atividade motora da escrita propriamente, bem como tentar evitar erros e escolher as estratégias apropriadas de estilo, como o uso de sinônimos, se necessário, ou evitar certas palavras, inadequadas ao gênero do produto. 
O escritor está sozinho com seus pensamentos no momento da escrita e dialoga somente consigo, embora o leitor externo esteja presente de maneira indireta, ficta, influenciando assim a atividade de redação.

Revisar a dissertação ou reescrever?

A edição de dissertações, teses, artigos, pode ser parecer assustadora – mas não se impressione tanto. Primeiro, vamos estabelecer o que entendemos como reescrita e revisão – depois daremos sugestões.

Para nós, reescrever é o ato de o autor de um texto modificá-lo. Reescrever é ação distinta da revisão, pois esta exige alteridade: ser feita por outro – e externalidade: quem revisa não pode ter tido contato com o texto antes da revisão. Quando o autor reescreve, claro que ele vai reparar lapsos, melhorar a redação e, normalmente, aperfeiçoar o texto. Mas o próprio ato de reescrever e, muitas vezes, reescrever e reescrever novamente, vai criando barreiras à identificação de problemas no texto, a visão do autor fica saturada da informação e ele deixa de ver os problemas no escrito – por isso a necessidade de um revisor externo.
Reescrever a dissertação para depois ela ser revisada, essa é a lógica!
O autor é quem tem  a
palavra final depois da revisão.
Atenção: reescrever não significa escrever tudo de novo. Apenas é o retorno do autor ao texto, fazendo nele as modificações que julgar necessárias.
O autor pode, ao reescrever, alterar o conteúdo do texto: ele é o dono da criação, pode preferir outro argumento, outro exemplo ou outra ordem das ideias; o revisor não pode fazer isso, ele tem limitações, pois o texto não lhe pertence, ele não tem autoridade (nem autoria), quando muito uma coautoria (ou sub-autoria). Então, há mesmo diferenças substanciais entre reescrever e revisar, embora os pesquisadores do letramento usem um pelo outro.