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24 de julho de 2014

Escrevendo e publicando artigos científicos

Aprender a escrever artigos científicos, não uma questão simples, onde existam roteiros definitivos, absolutos para o sucesso, mas há erros que praticamente garantem o fracasso.

Ser capaz de publicar em revistas científicas que tenham conselho editorial, cujos artigos sejam submetidos a revisão por pares, é comumente visto como um indicador da pesquisa científica adequada. É dever de um pesquisador publicar seus resultados para a comunidade científica. A pesquisa passou a ser vista como um produto que deve ser vendido para o público-alvo na forma de artigo. Em outras palavras, não existem resultados da investigação antes de eles serem publicados com sucesso. As pessoas-chave para a obtenção da aceitação do artigo para publicação são o editor-chefe, editores colaboradores e os revisores pares. Após a publicação, um artigo bem escrito vai atrair leitores, resultando em impacto científico definido pelo fato de outros cientistas citarem o artigo.
Os autores iniciantes terão mais dificuldades em terem seus textos aceitos em publicações conceituadas.
A única receita certeira para escrever
bem é escrever muito. Escrever para
publicar é escrever pensando no público.
Em alguns casos, as comissões editoriais forçam a barra desnecessariamente, exagerando requisitos para que sua publicação faça sucesso. Isso pode ser tanto uma tentativa intencional para trazer para um nível superior a qualidade do periódico quanto ser um jogo de egos. Infelizmente, é difícil entender o que está ocorrendo antes de publicar o primeiro artigo em alguma revista científica. Aprende-se a escrever artigos de revistas científicas por tentativas e erros quando o feedback do editor não está disponível, ou é insuficiente. Ocasionalmente, pode ser possível entrar no grande campeonato de revistas de alto nível, mas apenas com suporte e feedback adequados. Em outros casos, é possível publicar em revistas cada vez melhores, ganhando experiência inicial em veículos de publicação menos conceituados. Um pesquisador pode elevar sua ambição pela experiência adquirida.
Idealmente, a orientação adequada para publicação seria conduzida por um orientador acadêmico, ou por um grupo de pesquisa, mas isso nem sempre é o caso. Há dicas que têm sido identificadas como benéficas para escrever artigos, mas elas não remediam completamente a situação. Infelizmente,  o caso é que muitos pesquisadores se sentem mais confortáveis na realização de investigações e experiências científicas que ao relatar e publicar suas descobertas. Como resultado, uma quantidade considerável de pesquisa não tem sido publicada de forma que expresse adequadamente seu significado. Por outro lado, os pesquisadores que se comunicam bem são mais bem sucedidos na obtenção de reconhecimento e apoio para si, individualmente, e para sua instituição. Essas são algumas das motivações pelas quais é vital atingir a proficiência em escrever artigos para revistas científicas. É vital para um pesquisador novo começar a escrever artigos o mais cedo possível. Um início precoce irá acelerar o processo de aprendizagem. Muitas tentativas certamente redundarão em alguns êxitos.
Quando você está escrevendo, você é forçado a pensar sobre o seu conteúdo a partir de diferentes perspectivas. Muitas vezes, os pesquisadores cometem o erro de acreditar que escrever um artigo é uma fase separada a ser feita após a conclusão de toda a investigação. Recomenda-se que os pesquisadores comecem a escrever muito mais cedo. Do ponto de vista da eficácia, não é sensato esperar por um momento em que você sente que você sabe e compreende "tudo" o necessário para escrever alguns artigos. É mais sensato começar a aprender a escrever sobre cada ponto que possa ser abordado isoladamente, permitindo a percepção do que fazer e quando, assim, evitando trabalho posterior desnecessário. O domínio do assunto estudado é maior enquanto se trabalhava nele. Iniciando o processo de escrita gradualmente, de modo concomitante ao desenvolvimento do projeto, diminui-se o limiar para a publicação e, pela experiência adquirida paulatinamente, as chances de conseguir ter o trabalho aceito para publicação em melhores revistas vão melhorar.
Aprende-se melhor a escrever artigos pela prática de escrever, vale a pena iniciar o processo de aprendizagem e de escrita, fazendo anotações escritas de todas as ideias e documentar os processos de pesquisa e os resultados iniciais. Desta forma, você vai gerar um texto que pode ser utilizado mais tarde como base para os artigos, ou você vai ganhar experiência de escrita pelo menos. Além disso, ao escrever pensamentos, conclusões iniciais e etapas percorridas, um pesquisador pode identificar melhor as lacunas em seu pensamento. É benéfico ter em mente a publicação já durante a realização de experimentos. No entanto, é o resultado que definirá o foco do artigo ao final.
O processo de escrita de um artigo é iniciado considerando a importância futuro de sua publicação, a importância e novidade potencial do texto para a comunidade científica. Também é vital para identificar aqueles que possam estar interessados em ver seus resultados, ou seja, quem é o público-alvo? Além disso, é benéfico considerar as implicações práticas da sua investigação. Um artigo científico deve ser baseado, naturalmente, em pesquisa realizada por métodos cientificamente aceitos. Se o artigo envolve a investigação, ela deve ser descrita de forma clara e concisa para a comunidade científica.
O autor deve escrever seu artigo de modo que uma pessoa de fora possa compreender os pontos principais e a lógica de raciocínio com relativa facilidade. Lembre-se sempre de que seu artigo compete contra outras propostas de artigos que serão submetidos. A decisão sobre a aceitação não é feita somente com base na substância do artigo, mas a legibilidade do artigo também é importante. Aqui surge a figura necessária do revisor do texto, para que a qualidade da mídia não seja um obstáculo apontado pelo revisor par, o especialista que vai opinar sobre a publicação para a comissão editorial. O revisor de textos tem, necessariamente, prática no ofício que exerce e conhecimento teórico sobre os aspectos linguísticos do artigo, de modo a eliminar os ruídos comunicacionais porventura existentes: equívocos, erros, lacunas, dissonâncias, pontos obscuros e raciocínios dispersos, para mencionar a alguns eventuais problemas.
Consequentemente, um artigo bem escrito e adequadamente revisado deve ter estrutura clara e lógica combinada com linguagem fluente. Um artigo deve ser tão atraente quanto possível para os leitores; ninguém quer ler algo que seja trabalhoso de entender. Além disso, usar o jargão de modo desnecessário, abusivo, ou recorrer a gongorismos e a estruturas truncadas faz a experiência de leitura simplesmente desagradável. Não tente inventar novas soluções estruturais, mas seguir o formato científico canônico. Apresentar o objetivo do artigo e definir o problema de pesquisa devem ser claramente indicados na introdução, justificando o artigo. Depois, a revisão da literatura, descrição do processo de investigação e métodos, resultados e discussão. O início e o final de um artigo devem coincidir, ou seja, o problema indicado ou questões indicadas como mote da pesquisa devem ser abordadas no final. Qualquer desencontro diminuirá drasticamente a qualidade do seu artigo. A parte do meio do artigo irá descrever a lógica a respeito de como os resultados foram obtidos.

O revisor de textos entrevistado pelo autor

Essa entrevista de um revisor de textos ao autor é fictícia; muitas das questões são as que os autores nos colocam, refletem as dúvidas sobre o processo de revisão de suas teses ou dissertações - o texto acadêmico em geral.

O que é revisar um texto?

Revisar um texto é o processo técnico que visa torná-lo melhor que ele se apresenta. Qualquer texto
Quem faz revisão de textos acadêmico, geralmente, também faz formatação.
É bom que o autor pergunte ao revisor
tudo sobre como é o trabalho no texto.
pode e deve passar por contínuas revisões, a cada reapresentação ou reedição. A palavra revisar vem do latim revisere, significa nesse contexto ver de novo, examinar novamente, visar outra vez, e é algo diferente de rever simplesmente, pois implica a disposição para modificação e melhoria.

Mas não é só consertar ortografia, pontuação, gramática?

Claro que não! Na verdade isso é importante, mas a maioria dos programas de edição de texto já faz a maior parte desse trabalho. O trabalho do revisor fica abreviado por esses programas, sim, mas isso representa apenas um ganho de tempo para o autor e o revisor, não uma solução do problema. Revisar o texto inclui melhorá-lo em todos os aspectos, basicamente fazendo dele uma melhor ferramenta de comunicação entre o autor e o leitor. Eu diria que revisar é consertar o que estiver errado e concertar – assim com “c”, para que tudo esteja em harmonia!

Bem, então é uma questão de reordenar frases, evitar repetições, vícios de linguagem?

Sim, também isso! Essas questões ortográficas, gramaticais e de estilo são partes do processo amplo da revisão de texto, algumas vezes são chamadas de preparação do texto, outras de copydesk, ou de revisão primária, secundária até a revisão final – que nunca é a última mesmo, mas apenas significa que é preciso entregar o trabalho.

E o autor não pode revisar seu próprio texto, se ele for bom de português?

Todo autor lê e relê muitas e muitas vezes o que ele escreve. Todos fazemos isso. Mas o processo de revisão, como modernamente o compreendemos, pressupõe alteridade – o que quer dizer que é necessária outra pessoa, de fora do processo de criação do texto, para revisá-lo com isenção e distanciamento. As pessoas que estão envolvidas na criação do texto, autor ou autores estão muito próximas dele, podem deixar passar lapsos por terem uma leitura já apressada, ou pior: podem não perceber as dificuldades que uma pessoa de fora teria em compreender as informações e argumentos. Então, é necessária outra pessoa, ou outra equipe para a revisão do texto, principalmente se for um texto formal, destinado à publicação, seja pela edição, defesa ou qualquer outra mídia.

Vejo que a revisão é mais importante que eu supunha. O que mais está envolvido na revisão, por exemplo, de um texto acadêmico?

Escrever é um processo de criação, no caso do texto acadêmico, a criação está comprometida com a apresentação de uma verdade suposta, de um conhecimento produzido ou de analises sobre conhecimentos anteriores – quando não for tudo isso. Esse texto tem características próprias, diferentes do texto literário ou jornalístico, por exemplo, portanto requer uma estrutura própria de apresentação das informações, dos argumentos e das conclusões obtidas; muitas vezes essa estrutura é formal, uma forma mesmo que limita a criatividade, e cumpre ao revisor, em tal caso, verificar se o texto ficou bem amarrado em tais parâmetros.

O revisor vai reescrever o que o autor escreveu?

Não mesmo, ele não quer e nem tem tempo para fazer isso, assim como o autor consciente e cioso de seu texto não quer que ele seja reescrito. Existem revisores e revisões que interferem mais ou menos no texto, conforme a necessidade, o tempo disponível e o que ficar combinado entre autores e revisores. Revisão de textos é uma parceria, revisores trabalham em função de seus clientes, os donos ou autores do texto; então, fazem o que lhes é solicitado. Uma máxima dentre os revisores é: não fazer nenhuma interferência sem que haja justificação para ela. O autor sempre pode perguntar o motivo de alguma alteração e, informado, decidir sobre ela.

Mas eu trabalho muito em meus textos, não quero alguém os modificando, como fica?

O texto que a gente escreve é obra da gente; é normal gostarmos dele. Pincipalmente quando se é iniciante ou se escreve pouco, gostamos mais ainda daquilo que produzimos e gostamos menos que outros modifiquem. Mas é para isso que existem revisores, para mudar para melhor aquilo que foi escrito. Os autores melhoram também sua produção ao aprender com os revisores, mesmo os revisores aprendem continuamente uns com os outros. Assim como revisão é um processo contínuo, aprender a escrever também – os revisores estão sempre aprendendo mais, com os autores, com os gramáticos ou lexicógrafos e com os colegas de profissão. Nesse aprendizado, os revisores se aperfeiçoam no ofício de revisar e tendem a melhorar como autores também, afinal, desconheço revisor que não seja também autor.

Mas eu mesmo não posso ir revisando enquanto escrevo?

Claro que pode e deve, na verdade não há mesmo como ser diferente. Mal escrevemos um parágrafo, frase ou palavra, já os vemos e podemos reconsiderar. Isso é inerente à produção de texto. Mas quando se fala de revisão, no sentido profissional, é aquela que tem que ser feita por outra pessoa, a alteridade surge como o requisito indispensável. Quando o texto é de autoria coletiva, há problemas nele que derivam dessa mesma natureza, por exemplo, diferenças de estruturas fraseais entre os autores – e isso o revisor vai homogeneizar. Mas, nesse caso, o texto vem depurado de erros de concordância, normalmente, pois um autor costuma corrigir aqueles em que o parceiro incorrer! A chamada autorrevisão tem ainda o problema de ser um entrave à redação: deixe fluir a escrita, é melhor para o texto que se escreva mais em quantidade e velocidade que parando muito, releia seu texto a intervalos maiores; isso é mais produtivo.

Como posso saber se um revisor é bom?

Em primeiro lugar, a escolha de um revisor é muito pessoal. Escolher um revisor tem que ser por indicação ou por seleção criteriosa e, como em qualquer ramo, os melhores são mais caros! Não existe milagre de bom e barato no mercado. Verifique a experiência do revisor, não só em quantidade, mas se ele trabalha com textos do tipo que você está redigindo. Não precisa ser de sua érea de conhecimento, nada disso, mas há revisores especializados em romance, poesia, jornalismo, ou textos acadêmicos, para citar alguns deles. Há também revisores especializados em determinadas áreas, botânica, matemática, mas estes quase só trabalham em edições de livros muito técnicos. Verifique o portfólio da equipe ou do profissional. Lá também será possível ver o tempo de exercício no ramo, esse é um dado relevante. Mas se você é um autor habitual, procure estabelece parceria duradoura com um revisor, será proveitoso para as duas partes.

Não acontece de a revisão piorar o texto? A emenda ficar pior que o soneto?

Nunca vi nada nesse sentido. Mesmo um revisor iniciante, minimamente consciente, trabalha no sentido de melhorar o texto alheio e, segundo minha experiência, sempre o faz. Claro que revisores também erram (e quase são enforcados quando isso acontece), mas se o revisor introduzir um erro no texto, certamente ele terá eliminado vinte ou cem, se ele piorar uma oração, terá melhorado muitas outras. Claro que os revisores mais experientes tendem a errar menos, os mais atentos, os mais eruditos. Claro também que em uma tese de 600 páginas qualquer revisor vai cometer alguns erros, assim com qualquer autor cometerá centenas deles! O erro é inerente ao trabalho humano, inerente ao autor – e por isso existem revisores de textos, e inerente a estes, pois eles não são sobre-humanos!