Estratégias de leitura na revisão de textos

Revisar um texto implica em leituras e releituras consecutivas, mas trata-se de uma leitura especial, feita por um especialista. A atividade de revisão implica em diversas estratégias de se abordar o texto.

A leitura não é uma habilidade passiva. A psicologia cognitiva tem mostrado que o processamento de um texto gera grande atividade mental em que o leitor decodifica a palavra escrita, infere significados do contexto, detecta as ideias principais e secundárias, tenta estabelecer a sequência lógica discursiva, recorre a seu conhecimento prévio sobre o tema tratado, entre outras muitas tarefas de compreensão.
As estratégias para revisão de tese e dissertação.
O linguista usa conscientemente
diversas estratégias ao revisar.
Ler é intencional; um leitor atento define critérios diferentes de leitura segundo a finalidade para a qual desenvolve a atividade. Portanto, há também a possibilidade de se ler um texto para revisá-lo. Isso é o que faz um revisor profissional, um linguista encarregado de estabelecer controle de qualidade e estilo de qualquer texto destinado a publicação – por qualquer meio. Na literatura sobre formas ideais de revisão são feitas alusões às competências que o profissional deve ter, especialmente os conhecimentos linguísticos de sua língua de trabalho; no entanto, pouco ou nada fala sobre as habilidades específicas de leitura que o profissional deve desenvolver, já que muitos problemas não são detectados no texto ou, no pior dos casos, novos ruídos são gerados como resultado de uma leitura equivocada.

Políticas de revisão de textos acadêmicos

As universidades têm diferentes políticas no que se refere à revisão de textos, principalmente em se tratando das teses e dissertações elaboradas por seus alunos de pós-graduação.

O que fazemos aqui é uma compilação e breve análise de tais políticas a partir do que depreendemos de nossa atividade como revisores de textos cujo foco têm sido os trabalhos científicos longos. Em quase duas décadas atendendo a pesquisadores de universidades de todas as regiões brasileiras e de diversas instituições fora do Brasil, temos podido acompanhar os problemas relativos à textualização dos resultados das pesquisas e das relações entre os escritores e seus orientadores acadêmicos. Também temos podido detectar os subsídios e as demandas dos mais diversos programas de pós-graduação referentes ao assunto em tela.

Instrumentalização para produção de textos

Sempre revise sua tese ou sua dissertação com um profissional antes de a submeter à banca!
A revisão do texto de uma tese por
um profissional qualificado não só
é procedimento lícito como é
totalmente recomendado.
As habilidades e o conhecimento técnico necessários à produção de teses e dissertações ultrapassam em muito aquelas requeridas para a produção de textos narrativos ou dissertativos curtos. Há uma série de aptidões instrumentais objetivas que devem ser transmitidas ou desenvolvidas – muitas das quais não são inatas; tais habilidades se estendem desde as questões objetivas, quanto aos conteúdos (os assuntos tratados nos textos), passando pelos aspectos metodológicos da construção do conhecimento, e incluindo a adaptação do autor ao gênero textual em que estiver produzindo: tese, dissertação, artigo, material didático ou de divulgação científica, entre outros. Esses aspectos, ainda que superficialmente, costumam ser supridos por diferentes formas de subsídios aos alunos, com diferentes graus de eficácia. Mas há questões antecedentes à formação que a universidade costuma embutir nas disciplinas de Metodologia Científica ou de Redação Acadêmica, e que são necessárias à produção de textos longos.
Para exemplificar, vou mencionar dois aspetos sempre relegados pelas IESs: primeiro, o uso profícuo de programas de editoração eletrônica (Word®, e.g.) é virtualmente desprezado, tido como conhecimento prévio ou como objeto alheio à formação do estudante; depois, a retórica clássica  – jamais mencionada (talvez, exceto nos cursos de Filosofia), como se a capacidade de argumentação elaborada fosse inerente às pessoas e o conhecimento de três mil anos do assunto já estivesse impregnado no DNA das pessoas.

Estratégias para revisão de textos técnicos e científicos

Existem dois quesitos necessários a textos técnicos e científicos: clareza e concisão. Mas ambos vivem em  conflito entre si e é papel do revisor intervir para solucionar as questões que sobrevêm.

O problema de linguagem, o problema da qualidade da redação, às vezes, é considerado secundário pelas empresas que produzem manuais ou pelos pesquisadores que elaboram teses e dissertações. Apesar de essa percepção retrógrada e reducionista ser cada vez menos comum, a questão permanece crucial porque a eficácia e a adequação da comunicação por textos afetam o relacionamento com o cliente ou a imagem de um cientista. Um manual ou um relatório claro, assim como uma tese ou dissertação com argumentação pertinente, melhora a imagem de quem produziu o texto, enquanto um texto de difícil leitura ou mal compreendido pode afetar negativamente sobre a imagem e sobre os resultados pretendidos.
Texto é uma rede de informações bem estabelecidas.
Todos os procedimentos ou
intervenções têm estratégia,
revisão de texto também!
O revisor, portanto, é chamado para melhorar a qualidade do texto que lhe é apresentado. Mas definir exatamente o que constitui a qualidade no campo da técnica escrita não é fácil porque, enquanto alguns aspectos linguísticos, como legibilidade, são objetivos e mensuráveis, outros elementos exigem avaliações complexas e parcialmente subjetivas, dependendo de processos cognitivos individuais. Avaliação da qualidade de uma tese ou um relatório põe em causa não só a extensão léxica e coesão sintática: o texto deve, principalmente, tornar mais fácil de entender e representar a realidade extralinguística (o objeto e o propósito do texto). Das variações da ideia de qualidade vem a necessidade de considerar, na revisão e produção textual em geral, tanto o aspecto linguístico estritamente falando, questões de semânticas e pragmáticas.
O revisor é permanentemente confrontado com um problema de natureza técnica, comercial e comunicacional simultaneamente, e deverá sopesar a relação do tempo disponível, a contenção necessária do custo e a qualidade do serviço.

Revisão do texto técnico: a retórica da acessibilidade

A relação entre retórica, conhecimento, produção e revisão de textos é um problema filosófico antigo e interessante, em parte, por causa dos diferentes pressupostos sobre a natureza da comunicação e da revisão.

A revisão de textos no contexto dos negócios ou da vida acadêmica, considerando o ritmo de trabalho, a pressa ou a premência dos prazos, parte da premissa de que os textos não tenham sido concluídos como deveriam, impossibilitando ao revisor colaborar antes, durante e depois da produção; antes, durante e depois da elaboração do projeto e de seu desenvolvimento; descarta-se a colaboração que poderia orientar a produção, instruir a construção do discurso retórico e, finalmente, mas não menos importante, corrigir e aferir a comunicabilidade, consistência e acessibilidade do produto textual.
inventio – dispositio – elocutio – memoria – actio – prolepsis – revisão
Triângulo da retórica.
A revisão é o tempo em que se verifica se o autor conseguiu impor às palavras ordem para produzir um texto tão eficaz e eficiente que tenha materializado a intenção de comunicação do emitente, alcançando o destinatário sem ruídos indesejáveis. Tende-se a considerar a revisão como tarefa auxiliar – mas essa postura é um equívoco que trataremos de deslindar: a revisão é parte do processo de produção texto.
O que não se pode não ignorar para a comunicação escrita eficiente são os estágios da retórica clássica que determinam a composição dos discursos, passando por inventio – dispositio – elocutio – memoria – actio – prolepsis – revisão: para produzir um bom texto você deve primeiro reunir as informações, então fazer o roteiro do trabalho – ou o esquema a ser observado, depois escrever e, finalmente, proceder à revisão. São as aplicações das boas constantes aristotélicas do ethos (forma pela qual o autor convence o leitor de que está qualificado para falar sobre o assunto, como a formação ou autoridade adquirida podem influenciar o leitor), do pathos (trata-se de captar a empatia do leitor pelo uso de apelos emocionais externos o julgamento objetivo do conteúdo; pode ser feito por metáforas ou outras figuras de retórica pertinentes ou apresentar o tema de forma que evoque emoções favoráveis – o pathos é fortemente prejudicado em textos truncados, obtusos, confusos ou permeados de erros fáticos ou linguísticos) e do logos (uso da razão lógica e do raciocínio indutivo e dedutivo na construção do argumento, recorrendo à objetividade, estatística, matemática, raciocínio indutivo, paralelismo – exemplos, raciocínio dedutivo partindo proposições aceitas para extrair conclusões específicas, tudo para alcançar conclusões; argumentos logicamente inconsistentes ou enganadores são as falácias: erros lógicos propositais ou acidentais).